logo

Monthly Archives: April 2012

26 Apr 2012

I like debates ever since I can remember. Better still, I like at least trying to understand the reason for a debate. And I remember vividly the debate sparkled in 1988 by the release of ‘The Satanic Verses’. I was 11 then and couldn’t understand why the gentleman that had done nothing more than write a book was so attacked and critisized. The title of the book told me: ‘This must be a very dangerous thing; after all, I was always told that Satanic things are bad and dangerous.’ And that was the only explanation I found then for such upheavel. But then I grew up, and curiosity grew, because the initial justification I had found simply couldn’t convince me. The title, always the title, came to my head countless times, and I remember thinking: ‘Why? What is behind this?’ I waited over 20 years until the right moment came for me to come across the book. I found it several times in shelves, in book fairs. And I always said to myself: ‘I have to take you with me.’ But the moment wasn’t yet right. I believe that there is a right moment for every book to be read. We don’t come across them by accident. And we must only read them then and only then. And one day, at a supermarket book fair, there it was. Alone in a corner. A single copy. Looking at me. I didn’t hesitate, I picked up immediately and carried it to the till. In my hand, because all books deserve more respect from me than supermarket groceries. I remember the expression of the cashier when she ran the bar code and saw the book’s title. I curiously came across that same expression in many other faces on the bus, in the subway, in the café, wherever I read this book. And all because of the title alone. There is always an expression of: ‘Oh My God! Satanic?!’, and so many people almost blessing themselves when they read the title or when I tell them the title. I began to understand part of the debate surrounding this book. The title, always the title! And the ignorance of those who see all the evil in the world in a simple title. When the title, specifically in the book, is almost accessory. It isn’t, really. But almost…

If they ask me what I thought of the book, I always say: it’s hilarious. And it is. The central characters, Gibreel Farishta – a famous Indian movie actor, and Saladin Chamchawala, later simply Saladin Chamcha – TV and stage actor in England, are in fact hilarious. Hilarious because they’re too real. They are flesh and blood like us, though fictioned. But real and just like us. With faults and virtues like us. And, I repeat: hilarious. Specially Gibreel Farishta, the Indian superstar, very presumptuous, a totally hollow philanderer. Empty. But also Saladin Chamcha. A ‘more or less’ famous actor in a British children’s TV series. A somewhat frustrated actor that is only used in TV for his voice. Who never gets a chance to show his face because he’s Indian, and that is only shown with alien or animal masks.

Desde sempre que me lembro de gostar de polémicas. Ou melhor, de querer pelo menos tentar entender o porquê das polémicas. E lembro-me perfeitamente da polémica que estalou em 1988 aquando do lançamento de “Os Versículos Satânicos”. Tinha 11 anos na altura e não percebia porque é que o senhor que nada mais fez do que escrever um livro, foi tão atacado e criticado. O título do livro dizia-me “isto deve ser uma coisa muito perigosa, afinal sempre me disseram que coisas satânicas são más e perigosas” e só assim encontrava, na altura, uma explicação para tanta polémica. Mas fui crescendo e a curiosidade foi crescendo porque a justificação que tinha encontrado inicialmente simplesmente não me convencia. O título, sempre o título, vinha-me à cabeça inúmeras vezes e lembro-me de pensar: “porquê? O que é que está por de trás disto?”. Esperei mais de 20 anos até chegar o momento certo para me cruzar com o livro. Encontrei-o várias vezes em prateleiras, em bancas de feiras de livros. E dizia sempre para mim mesma “tenho que te levar comigo”. Mas ainda não era o momento certo. Acredito que todos os livros têm o momento certo para serem lidos. Não se cruzam connosco por acaso. E só os devemos ler naquele momento e nunca noutro qualquer. E um dia, numa feira de livro de um supermercado, lá estava ele. A um canto, sozinho. Único exemplar. A olhar para mim. A chamar por mim. Não hesitei, imediatamente peguei nele e o levei na mão, até à caixa. Na mão porque todos os livros me merecem mais respeito do que mercadorias de supermercado. Lembro-me da expressão da cara da menina da caixa registadora quando passou o código de barras e viu o título do livro. Curiosamente, cruzei-me com essa mesma expressão em tantas outras caras no autocarro, no metro, no café, onde quer que fosse que me encontrasse a ler o livro. E tudo por causa do título, apenas. Há sempre um esgar de “meu Deus! Satânicos?!” e tanta gente que quase se benze quando lê o título ou quando lhes digo o título. Comecei a perceber uma parte da polémica à volta deste livro. O título, sempre o título! E a ignorância de quem vê num simples título todo o mal que há no Mundo. Quando o título, neste livro em específico, é quase acessório. Não o é, na realidade. Mas quase…

Se me perguntam o que achei do livro, digo sempre: é hilariante. E é. As personagens centrais, Gibreel Farishta – um actor famoso do cinema indiano, e Saladin Chamchawala, mais tarde apenas Saladin Chamcha – actor de televisão e teatro em Inglaterra, são de facto hilariantes. Hilariantes porque demasiado reais. São pessoas de carne e osso como nós, apesar de ficcionadas. Mas reais e iguais a nós. E com defeitos e virtudes como nós. E repito: hilariantes. Especialmente Gibreel Farishta, a super star indiana, muito convencido, mulherengo e absolutamente oco. Vazio. Mas também Saladin Chamcha. Actor “mais ou menos” famoso de uma série infantil da televisão britânica. Um actor algo frustrado que na televisão é utilizado pela sua voz. A quem nunca dão a oportunidade de dar a conhecer a sua cara, por ser indiano, e que se apresenta sempre com máscaras de extraterrestes ou outros bichos.

Catarina Filipe – April 25,2012

[translation: Ana Saragoça]

26 Apr 2012

Salman Rushdie

Salman Rushdie

26 Apr 2012

Catarina Filipe – Os Versículos Satânicos (The Satanic Verses) / Salman Rushdie

17 Apr 2012

To choose the book of our lives is nearly impossible but being challenged to do it, I immediately thought of Noites Brancas, by Dostoievski. Not for the book in itself, but by the circumstances in which I read it. The book was a gift by my teacher in primary school, when I finished 4th grade. Proud to have completed a school cycle, about entering a new school-the one for the gown-ups –and surprised by this offering from my teacher, I saw in this book a ticket for a more adult phase in my life. So I start reading it on my first day of vacation. Set in St. Petersburg it reports the meetings between a loner young man who isolates himself from the world to escape to his own everyday life, and a girl who is looking for salvation from her frustrations through love.

I doubt that, on top of my nine years old, I have understood the dilemmas, the fluctuations and the contradictions of human feelings that Dostoievski imprinted in this book but the truth is that I felt a grown little woman after I read it… My journey into the world of adults had begun and Dostoievski was my first ticket for an adventure that I still keep carrying on!

Eleger o livro da nossa vida é uma tarefa quase impossível mas, perante o desafio imposto, imediatamente me lembrei do «Noites Brancas» de Dostoievski. Não pela obra em si, mas pelas circunstâncias em que o li. Este livro foi-me oferecido pela minha professora primária no dia em que terminei a 4ª classe. Orgulhosa de ter concluído um ciclo escolar, prestes a entrar numa nova escola – a dos mais crescidos! – e surpreendida por esta oferta da minha professora, vi neste livro um bilhete de passagem para a fase mais adulta da minha vida. E foi logo no primeiro dia de férias que o comecei a ler. Passado em São Petersburgo relata os encontros de um jovem solitário que se isola do mundo para fugir ao seu próprio quotidiano e de uma rapariga que procura salvar-se das suas frustações através do amor.

Duvido que, no alto dos meus nove anos, tenha compreendido os dilemas, as flutuações e as contradições dos sentimentos humanos que Dostoievski imprimiu nesta obra mas, a realidade é que me senti muito mais mulherzinha depois de o ter lido… a viagem ao mundo dos adultos tinha começado e Dostoievski foi o meu primeiro bilhete para uma aventura que ainda continuo a percorrer!

Isabel Garcia Pereira – March 13, 2012

17 Apr 2012

Fyodor Dostoyevsky

Fyodor Dostoyevsky

17 Apr 2012

Isabel Garcia Pereira – Noites Brancas (White Nights) / Fyodor Dostoyevsky

10 Apr 2012

India doesn’t exert a special fascination on me. Much less its cliché images that in 2001 populated my imagination about the country. Maybe that’s why the book End Time City has represented for me a revelation even more special. This book, filled with images of Benares, a Holy City, where people go to die, in the hope of ending their cycle of reincarnations and reach finally the deserved rest, is an object that I keep always close, and to which I return with some frequency.

At the time I bought it, I had 20 years old and was shifting my interest on painting and architecture, to photography and cinema. I was giving my the first steps in the black and white laboratory, with a teacher who was fond of Joel-Peter Witkin and Antonin Artaud.

At a Bertrand bookshop, with a small budget still in ‘escudos’, I was searching for what would be my first photo book. At the end of the day, all messy, sunk under a pile of books, there it was, wrapped in a clear and yellowish plastic dust jacket. It was an impulsive purchase – there was something in that book that prompted me to take it with me. Only when I got home I realized that I had in my hands a precious object. Because it was browsing through the pages that I realized something that changed indelibly my relationship with photography – more than be looked at, it has to be felt.

Michael Ackerman is a unique photographer, his work does not end at the boundary of the representation of surface or “reality”: he transforms and shapes them so that they mirror what he feels. To impose no limits on the way he looks at things is perhaps his only rule. Through a very personal language, black and white, grain, movement, format variation, he unveils images that go beyond the real, images that represent a very particular surrealism. The locations he evokes encompass time, geography, nature, construction, people, life and death. Stepping through End Time City, Ackerman guide us through what seems to be the story of a dream-sometimes with smatterings of nightmare, sometimes musical, punctuated with humour or tenderness. End Time City will always be a special book – its photos have a special quality that I rarely encounter. Maybe I will never see India with my own eyes, maybe I will never understand it, but I feel it very deeply in each one of these pictures.

A Índia não exerce sobre mim um particular fascínio. Muito menos as suas imagens-cliché que em 2001 povoavam o meu imaginário sobre esse país. Talvez por isso o livro End Time City tenha representado para mim uma revelação ainda mais especial. Este livro, repleto de imagens de Benares, uma cidade santa, onde as pessoas vão para morrer, na esperança de acabar o seu ciclo de reencarnações e alcançar por fim o merecido descanso, é um objeto que guardo sempre perto, e ao qual volto com alguma frequência.

Na altura em que o adquiri, tinha 20 anos, e desviava o meu interesse da pintura e da arquitetura, para a fotografia e para o cinema. Dava os primeiros passos no laboratório de preto e branco, com um professor que gostava de Joel-Peter Witkin e Antonin Artaud. Num outlet da Bertrand, com um pequeno orçamento em “contos”, procurava aquele que seria o meu primeiro livro de fotografia. No fim do dia, tudo desarrumado, afundado sob uma pilha de livros, lá estava ele, envolto num dust jacket de plástico transparente e amarelecido. Foi uma compra impulsiva – houve qualquer coisa naquele livro que me impeliu a levá-lo comigo. Só quando cheguei a casa percebi que tinha nas mãos um objeto precioso. Porque foi ao percorrer as suas páginas que percebi algo que transformou de forma indelével a minha relação com a fotografia – é que mais do que ser vista, ela tem que ser sentida.

Michael Ackerman é um fotógrafo singular, a sua obra não se esgota no limite da representação da superfície ou da “realidade”: ele antes molda-as e transforma-as de modo a que estas espelhem aquilo que ele sente. Não permitir limites ao seu olhar será talvez a sua única regra. Através de uma linguagem muito própria, o preto e branco, o grão, o movimento, a variação inconstante do formato, ele desvenda imagens que vão para lá do real, imagens que representam uma surrealidade particular. Os locais que ele evoca englobam em si o tempo, a geografia, a natureza, a construção, as pessoas, a vida e a morte. Percorrendo End Time City, Ackerman guia-nos pelo que parece ser a história de um sonho – às vezes com laivos de pesadelo, às vezes musical, pontuado até com algum humor ou ternura. End Time City será sempre um livro especial – as suas fotografias têm uma qualidade própria que raras vezes encontro. Talvez nunca veja a Índia com os meus olhos, talvez nunca a perceba, mas pressinto-a de forma mais profunda em cada uma destas imagens.

Magda Fernandes – April 2, 2012
10 Apr 2012

Michael Ackerman

Michael Ackerman

10 Apr 2012

Magda Fernandes – End Time City / Michael Ackerman

02 Apr 2012

I’m portuguese. Academic trained as a literary. And an historian of the instant because its my personal flaw and because i follow my own words as i write them. Picturing society of today in a book may seem common. But with João Aguiar the words get their life from the reader itself. It enlightens even the most unaware of readers. Because reading helps to transcend the line of everyday life, and with Solitão Fernandes, the character of this book, each new line can be mine, yours, everyone’s life. Sailing there we all do. But lonely and aware i’m not so sure.

Joao Aguiar’s lonely sailor came to my teenage years in a key point. I ate books. I would go through each new page to occupy the time and the will to go from then and there. And i clang to solitude, a youngster just as me and far from the reality  the world would like to impose on him. He did what was asked of him. Ate frogs and grew from each blow the life would give him. Grew with love and with sour and became the men that none thought he could be. Not even me who ate each page in a single breath. Many and more times i re-read it. Because, The history is the same but the feelings, those, those would change with each new reading. I sailed lonely myself. Between the lines i lived also a reality that could be my own and i even wanted it. I read the classic latin given to me. And not even João Aguiar cared, i’m sure. I offered it to some friends, other portuguese words eaters. Because what is good is to be shared, i gave it. Always!

Sou Portuguesa. Literária por formação académica. E Historiadora do Instante por defeito próprio, por ter ainda acompanhado o latim das palavras que escrevo. Retratar a sociedade contemporânea ao longo de um livro parece uma ideia banal. Mas com João Aguiar as palavras ganham sempre a vida de quem as lê. E esclarece até os mais escurecidos leitores de pequenas distracções. Porque ler ajuda a passar a linha ténue do quotidiano e com o Solitão Fernandes, “o personagem” deste romance, cada nova linha ganha a característica de poder ser a minha, a tua, a nossa história de vida. Navegar por ai navegamos todos. Mas solitários e conscientes, disso já não tenho tanta certeza. O Navegador Solitário de João Aguiar apareceu na minha adolescência numa altura chave. Devorava pilha de livros. Revirava cada nova página para ocupar tempo e vontades de sair “daqui e dali”. E apeguei-me ao Solitão, jovem como eu e deslocado da realidade que lhe queriam impôs. Fez o que lhe pediram. Engoliu sapos e cresceu com as pancadas da vida. Cresceu com amores e dissabores e tornou-se um Homem que nunca ninguém pensou que viria a ser. Nem eu, que devorei cada página com um único fôlego. Foram muitas as vezes as inúmeras outras vezes em que o reli. Porque a história é a mesma mas os sentimentos, esses, mudaram sempre nas novas leituras. Naveguei solitária também. Porque nas entrelinhas vivi também uma realidade que podia ser a minha e até a queria. Classicamente devorei o latim que me foi dado. E nem João Aguiar se importou, decerto. Ofereci-o a outros amigos, a outros devoradores de palavras em português. Porque o que é bom, para além de se partilhar, oferece-se. Sempre!

Vanessa Quitério – March 9, 2012