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Monthly Archives: February 2014

05 Feb 2014

Escolhi este livro porque foi um livro importante para mim. Foi importante porque me mudou, porque marcou a minha (curta) vida e também porque me foi oferecido por alguém que me disse coisas lindas, sim, vagabundos de dedos entrelaçados. Preto, algodão branco, a maneira como dizia a palavra ‘mesmo’, uma série de sonhos, estradas curvilíneas abraçavam a estrada sem fim. O livro (o mais roubado nas livrarias portuguesas em 2009) foi me oferecido numa quente, muito quente tarde de Verão (na verdade foi me oferecido num sítio especialmente romântico, a famosa bomba de gasolina) a caminho da Serra de Sintra. Talvez fosse a caminho do Guincho, da Praia Grande, de um banco de pedra onde conseguia ver Colares e o mar. Ah, o mar. Como dizia a minha querida Sophia: Mar, metade da minha alma é feita de maresia. Sempre tive uma espécie de paixão pelo mar, de ver o mar, de estar no mar, de dar beijos a ver o mar, de cheirar a brisa na praia. Fui muito feliz a ver aquele mar, fui muito feliz no Verão passado. Fui ao Brasil e tudo naquele Verão, aqui em Lisboa fui à América do Sul, foi delicioso. Fomos lindos. Fomos tão lindos.
Li muito nesses meses de calor insuportável, foi maravilhoso. Li as 1032 páginas do 2666 em três semanas, como prometido. Foi uma das leituras com prazo, a melhor delas e também a maior. Todos os dias levei o livro comigo para a praia, todos os dias fiquei deitada na areia a ler entusiasmada cada palavra maravilhosa. Apaixonei-me pela história, pela história do desconhecido e desaparecido, da procura e de muito muito. A procura de Archimbold, a paixão dos quatro intelectuais pela obra deste, o triângulo amoroso, as cidades feias e violentas, os crimes, os sonhos (ah! os sonhos), as pistas, o deserto, o tapete, o livro de geometria. Cada palavra muda quem somos – eu mudei. Este livro mudou-me, tal como foi previsto por quem mo ofereceu. Fiquei feliz por ter lido um livro tão fantástico tão nova. Foi de facto o livro perfeito. Agradeci o pin que tenho com o autor (está na minha carteira desde então), mas nunca cheguei a agradecer o livro (sempre disse que os melhores presentes são música e livros), a agradecer verdadeiramente um dos melhores presentes que recebi. É verdade, também não cheguei a dizer a quem me ofereceu o 2666 de Roberto Bolaño que o li em 20 dias. Gostava de poder ter dito com orgulho que tinha cumprido o prazo, como uma aluna aplicada. Foi o melhor Verão da minha vida, foi quando comecei a viver (minhas senhoras, ler bons livros é viver também). Bolaño vai mudar a vida de todas as pessoas que o lerem, se não mudar é porque têm de o ler outra vez. Li outros logo de seguida, o ‘Terceiro Reich’ e o ‘Amuleto’ (Quetzal), que aconselho vivamente. Para quem argumenta que o livro é muito grande, não dá vontade de ler, que vão desistir a meio, eu digo apenas ‘Leiam, leiam, leiam’.

Raquel Mestre – March 2, 2014

04 Feb 2014
04 Feb 2014

Raquel Mestre – 2666 / Roberto Bolaño