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03 Jan 2015

É  quase impossível escolher o livro da minha vida. Eles, os livros, crescem, amadurecem connosco e aquilo que nos marca aos dezasseis, dificilmente deixará a mesma marca aos trinta, aos quarenta. Porque eles, os livros, também são tempo. Que corre à velocidade que os lemos. Por isso é tão difícil escolher um único livro. E assim, decidi escolher o primeiro que me marcou, aos nove anos.  Uns nove anos, deitados num chão coberto por uma alcatifa cor de rosa, o chão do meu quarto, onde eu lia, até que anoitecesse, os livros do meu irmão mais velho.  Livros para rapazes, dizia a minha mãe.  Nunca percebi porque lhes chamava assim. Para mim eram simples livros de heróis, que por detrás dos meus olhos libertavam reinos e outros oprimidos pela coragem da espada. Fui, Lancelot, Rei Artur, D’Artagnan, Aramis.  Até ao dia em que a minha mãe o comprou, numa papelaria, em Algés.  Li-o quando tinha a tua idade, disse-me, como se tratasse de uma espécie de passagem de testemunho. Devorei-o num único dia. E pela primeira vez emocionei-me ao ler um livro  e senti o poder de uma boa história.  O poder de nos podermos rever em palavras escritas  muitos anos, antes de termos nascido, numa língua diferente da nossa.  As frases sucedendo-se a uma velocidade alucinante, e ela, a  Sarah, a personagem principal, sentada à chinês, ali ao meu lado, com os seus olhos verdes postos em mim. Ela , uma menina que, tal como eu, dizia coisas estranhas e  imaginava outras  que  mais ninguém compreendia.  Os meus dedos a passarem, sôfregos, as páginas e Ramdass a  trazer-lhe  magia à pobreza da mansarda  e por detrás de mim acendia-se uma lareira a meio da noite, ainda que fosse de dia e o meu quarto nunca tivesse tido lareira. As sombras do fim do dia a crescerem na parede, a minha mãe a dizer, acende a luz que te faz mal à vista, e o livro quase, quase a acabar, eu assoar-me nas costas da mão, acende a luz que te faz mal à vista. Depois da última página, fiquei, sentada à chinês, na penumbra do quarto e a minha mãe a perguntar, estás a chorar porquê? Gostaste? Eu a acenar com a cabeça e a dizer-lhe que quando crescesse queria ser escritora. Ela sorriu e disse, vai lavar as mãos, que vamos jantar.  Por isso, tendo que escolher apenas um, escolho este: “A  Princesinha” de Frances Burnett. Porquê? Porque foi  com ele que tudo começou.

Cristina Nobre Soares – January 2, 2015

03 Jan 2015
03 Jan 2015

Cristina Nobre Soares – A Princesinha / Frances Burnett