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Monthly Archives: May 2015

20 May 2015

JE SUIS VILHENA

José Alfredo Vilhena Rodrigues, VILHENA, nasceu em 1927. É um dos nossos cartoonistas com mais tempo passado na prisão. Entre 1962 e 1966 esteve quase todo o tempo preso, em resultado de, até ao 25 de Abril, ter escrito cerca de 70 livros e de nunca ter parado de usar a censura como tema preferencial nas suas abordagens “estéticas”. Vilhena afirmou-se como um homem livre. Mesmo em liberdade, foi constantemente processado, perseguido. Foi quase sempre falido que se defendeu. A si próprio ou outras vezes com a ajuda dos amigos.

O estado português nunca o reconheceu.

Eu reconheço-o e agradeço-lhe agora, aqui, como posso. Cresci com a Gaiola Aberta. Literalmente. Isto, se a minha Gaiola for a cabeça. Ajudou ter tido todos os números desta publicação, encadernados, à minha disposição. Mas só ajudou porque mos deram a ver/ler. Mas só mos deram a ver/ler porque me queriam de Gaiola – verdadeiramente – Aberta.

Gaiola Aberta é uma publicação de Abril. É vermelha por fora e de todas as cores por dentro. VILHENA publica o primeiro número a 15 de maio de 1974. Não me canso de o imaginar, furiosamente a escolher textos e desenhos, seleccionar, paginar, editar, escrever, numerar, imprimir, enviar, corrigir, tudo em menos de um mês.

A urgência da liberdade.

No dia 7 de janeiro de 2015 em Paris a ignorância, o fanatismo e o medo mataram 12 pessoas. Entre eles vários cartoonistas. Nesse dia fui buscar as Minhas Gaiolas Abertas à estante com porta de vidro – a estante que uso para os livros que têm obrigatoriamente de estar defendidos do pó – e chorei. Em silêncio.

Para esta sessão

eu e o Mário – a quem aqui agradeço tanto – escolhemos o Animatógrafo de Lisboa como pano de fundo. Não entrámos. Porque não quisemos. Porque não era preciso. Porque sabemos onde é. Porque decidimos não o fazer. Mas só porque hoje é possível decidir entrar ou não. Porque é belo que esteja aberto. Porque é muito bela a sua fachada Art Deco.

A obra de VILHENA fala por ele mas não chega. A obra de CHARLIE falará por eles todos mas não chegará nunca. A urgência da liberdade. Cabe-nos a todos defendê-los do pó do esquecimento, ao mesmo tempo que os retiramos das estantes e os erguemos sem medo. A sorrir. Sempre.

Catarina Romão Gonçalves – maio de 2015 – 41 anos depois da publicação do primeiro número.

20 May 2015
20 May 2015

Catarina Gonçalves – Um Ano com a Gaiola Aberta / José Vilhena

08 May 2015

Os Maias

“[…] Ao menos assentámos a teoria definitiva da existência. Com efeito, não vale a pena fazer um esforço, correr com ânsia para coisa alguma.

Ega, ao lado, ajuntava, ofegante, atirando as pernas magras:

– Nem para o amor, nem para a glória, nem para o dinheiro, nem para o poder…. 

A lanterna vermelha do americano, ao longe, parara. E foi em Carlos e em João da Ega uma esperança, outro esforço:

 – Ainda o apanhamos! 

– Ainda o apanhamos!

De novo a lanterna deslizou e fugiu. Então, para apanhar o americano, os dois amigos romperam a correr desesperadamente pela Rampa de Santos e pelo Aterro, sob a primeira claridade do luar que subia.”

(Eça de Queiroz, Os Maias, capítulo XVIII)

Quando se começa a ler muito cedo, se vive rodeado de livros muito bem arrumados e se passa a infância e a adolescência na província, por muito rio que “corra pela nossa aldeia”, são eles os verdadeiros companheiros, os confidentes, os professores, os modelos a seguir. Vivo com livros desde que me entendo como gente, isto é, desde que percebo que o mundo não cabe em “papéis pintados com tinta”, nem no quintal de paredes altas caiadas de branco. Aprendi a gostar de livros como se aprende a gostar de tudo o que nos faz feliz, nos comove, ou nos incomoda. Gosto do cheiro, das partículas de pó que se soltam quando agarramos os que estão na prateleira mais acima, gosto de lhes tocar, os folhear e assinalar-lhes uma frase mais íntima. Numa casa onde a única criança era eu, os livros foram sempre os meus brinquedos preferidos. Longos dias de férias e a curiosidade de quem vive rodeada de adultos depressa me levaram das páginas do Cavaleiro Andante para as prateleiras dos romances que não eram para minha idade. Depressa os esgotei e passei, com cartão de leitor e autorização da minha mãe, para as estantes intermináveis – para a menina que ainda era – da Biblioteca Municipal.

Não sei dizer qual o livro que mudou a minha vida. Não sei. De todos os que li o que mais marcou. Não sei dizer que livros deitaria fora e, muito menos, que livros levaria para uma ilha deserta. Custa-me entender a pergunta. Alexandre Dumas, Vítor Hugo, Tolstoi, Zola, Almeida Garrett, Marguerite Duras, Marguerite Yourcenar, Simone de Beauvoir, Alexandre Herculano, Eça de Queiroz, José Gomes Ferreira, Cardoso Pires, Vergílio Ferreira, Agustina Bessa-Luís…Faltam-me outros tantos, as respetivas obras e todos os que ainda quero ler, os que farão de mim uma pessoa melhor, antes que uma qualquer “aurora de róseos dedos” me leve, de preferência, para o Paraíso de Jorge Luís Borges. Não sei dizer qual deles mudou a minha vida – sei que mudaram a minha vida e fizeram de mim esta pessoa, para quem é incompreensível uma vida sem livros e sem afetos.

Foi este gosto pela leitura e o prazer de uma boa conversa que, pela mão, não me fosse eu perder, me levaram para a Faculdade de Letras e de lá, num pulinho, sem medo nem hesitações, para a sala de aula. Ainda lá estou. Há trinta e quatro anos que, entre um sujeito e um predicado, explico, desconstruo e volto a construir as obras literárias que continuam a pertencer-me, a mim, e ao programa de Português, do sétimo ao décimo-segundo ano. Faço-o com gosto, com prazer, por opção e, por amor, claro está, aos livros. O caminho para leitura é difícil e tortuoso, uma batalha constante entre as imagens velozes de uma qualquer série de televisão e a destruição de um inimigo num jogo de computador. Os meus alunos não gostam de ler. Os miúdos, hoje, não leem. As histórias escritas não lhes dão a adrenalina de um confronto de titãs. É uma árdua tarefa explicar-lhes que dentro dessas páginas estão vários monstros, príncipes, princesas, viagens, sentimentos, descobertas científicas, gente numa galáxia longe da nossa… Demonstro com muitos gestos e caretas que dentro de um capítulo qualquer está um mundo à espera de ser descoberto e que dentro de cada cabeça, as trinta e tal que, hoje, compõem as nossas turmas, está um mundo diferente… tinta e tal mundos descobertos dentro do mesmo capítulo são muitos mundos!

Não tenho a veleidade de pensar que ao longo de todos estes anos, os alunos que me passaram pelas mãos leram, na íntegra, tudo o que deveriam ter lido. Para que serviriam, então, os resumos? Não tenho a veleidade de pensar que todos os meus alunos leram o romance Os Maias de Eça de Queiroz. A maior parte não leu, não passeou por Santa Olávia, não jantou no Hotel Central, nem tão pouco correu atrás do americano. Não tenho ilusões, ou melhor, já não tenho essa ilusão. Acredito, no entanto, que ao longo destes trinta e quatro anos alguns, poucos, meninos e meninas, encontraram a leitura, algures, numa página, destes dezoito capítulos. A alguns meninos e meninas a leitura deste romance terá mudado a vida, alguns destes meninos serão bons leitores, escritores, professores… 

Com a minha ajuda, Eça de Queiroz entrou nas suas vidas e ainda por lá anda. Não sei que livro mudou a minha vida, mas sei que Os Maias mudou a vida a alguém. Todos os anos, acredito, ensino alguém a ler. Todos os anos a minha vida muda, também, um bocadinho, isto é, Os Maias é o livro que mais vezes tem mudado a minha.

Obrigada, Eça de Queiroz.

Linda David – April 22, 2015

08 May 2015
08 May 2015

Linda David – Os Maias / Eça de Queiroz