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Monthly Archives: August 2015

31 Aug 2015

Le renverse du souffle – Paul Celan

Cresci no meio das ironias típicas dos anos 90 por – “coitada” – fazer parte do espectro monoparental. Numa casa de informação em que habitualmente via limitados os quatro canais de televisão, o maior entretenimento dos meus dias de criança seria passar um dia com a minha mãe pelos estúdios da TSF (antiga Rádio Jornal do Centro). Não dava para mais, não havia atividades extracurriculares – como o ballet, a natação, ou o ténis – mas existiram sempre duas coisas: vinis e livros. Fui irremediavelmente absorvida por ambos mas foram sempre os livros os que mais me cegaram – os que, ainda hoje, mais me cegam.

No meu quarto, ainda antes de ingressar no curso de Filosofia, houve sempre “umas” Fábulas de Esopo, “uma” Agatha Christie, “um” Sartre e “um” Nietzsche. Estranha combinação que me manteve o gosto pela singularidade de cada registo de escrita e me ofereceu uma solidão “acompanhada” que ainda hoje sinto, mesmo rodeada pela maior multidão.

Hoje direi – de Sylvia Plath a Dostoievski, de Al Berto a Rimbaud – o gesto de escolher um nome, de escolher um livro, sinto-o sempre como uma pequena transgressão…
E nela, no delito que aí se afigura incontornável, escolho as palavras que de modo mais marcante gravaram em mim essa estranha solidão – escolho um nome: Paul Celan, escolho um livro: Renverse du souffle, e um verso: «Le monde n’est plus, il faut que je te porte».

Lia Raquel Neves, 20 de Agosto de 2015

31 Aug 2015
31 Aug 2015

Lia Raquel Neves – Renverse du souffle / Paul Celan

10 Aug 2015

É difícil escolher uma música favorita, um filme ou um livro! Considerei escolher livros que me marcaram pela sua genialidade, maioritariamente de autores russos do séc.XIX, ou até do famoso irlandês Oscar Wilde. Esse século é, sem dúvida, o da genialidade literária, na minha opinião.Rapidamente comecei a considerar livros de enconomia comportamental, psicologia, que me fascinaram… Passou-me pela cabeça alguns de liderança e até de gestão! Esta indecisão fez-me adiar a participação neste projecto.. Até que se fez luz! Não precisava de considerar nenhum livro “pseudo intelectual” se claramente “O Principezinho” é o livro da minha vida! Li-o vezes sem conta, ao longo de anos e anos… Fui sempre retirando novas conclusões e aprendendo… É um livro mágico! (A par do “Fernão Capelo Gaivota”, por mais cliché que as escolhas possam soar).Está edição, pop up, é-me particularmente querida: foi-me oferecida pelas minhas irmãs (por quem nutro um amor incondicional assumido) e fascina-me as surpresas que encontro a cada página… “ O Principezinho” desperta o melhor que há em mim… E isso torna-o único!

Virgínia Coutinho, 6 de Agosto de 2015

10 Aug 2015
10 Aug 2015

Virginia Coutinho – O Principezinho / Antoine de Saint-Exupéry

07 Aug 2015

A Gramática da Fantasia – Gianni Rodari

A Gramática e a Fantasia… detesto uma e amo a outra. Tenho com a gramática uma relação difícil. Reconheço a sua importância mas admito que quando escrevo as letras começam a perder rapidamente a sua forma à medida que os pensamentos fluem mais depressa. Vou estilizando todas letras numa espécie de onda continua, achatando as palavras em linhas e os meus apontamentos normalmente resumem-se a uma sequência de traços e pontos onde não cabe a preocupação com a gramática. Fica como que uma tradução em código morse daquilo que pensei, uma espécie de eletrocardiograma de ideias.

Regra geral, passado algum tempo, não consigo ler nada. Mas, curiosamente, consigo intuir aquilo que eu queria registar. Nesse momento, ler deixa de ser aquele processo de observação e interpretação de símbolos e passa a ser um exercício mental de recuperação de ideias, de imaginação, de reconstituição do pensamento e do próprio momento em que escrevi, o que para mim, apaixonada pela criatividade e pela fantasia, é na verdade mais interessante.  

Neste livro, Gianni Rodari explora essa capacidade que todos temos de imaginar, de criar e recriar momentos e a forma como as palavras impactam o nosso léxico, chocalhando a imaginação como uma pedra num charco. O livro explica como podemos usar as palavras como brinquedos para criar histórias, para criar poesia, para inventar novos mundos e explorar caminhos que nunca percorremos dentro de nós. Fala sobre a infância, sobre o humor e sobre como os adultos podem desenvolver a imaginação das crianças e a sua (mas também o espírito crítico, a auto-confiança, etc).

Foi o primeiro livro que me convidou a olhar para as palavras como pequenas peças do puzzle que é a minha imaginação. De forma muito prática, o autor ajudou-me a explorar as possibilidades que elas encerram através de exercícios que convidam a descobrir as histórias que nunca foram visitadas.

Se hoje tivesse aplicado aquilo que aprendi com o livro, este artigo seria muito diferente. Se calhar começava assim:

Os meus apontamentos parecem um eletrocardiograma de ideias. Quando me apercebi disto fiquei preocupada e fui ao médico. Mostrei-lhe o meu bloco de notas e ele concluiu que as minhas ideias estão dentro do intervalo normal para a minha idade mas detetou algumas arritmias lógico-conceptuais e que é possível que tenha um soprozito entre a página 5 e a 7, mas não é nada de grave. Aconselhou-me a perder algum peso na sintaxe e a fazer exercício mental após cada parágrafo. No fim disse-me para evitar o excesso de palavras poli-saturadas como “inconstitucionalíssima” porque como têm muitas sílabas e como eu escrevo tudo a direito fica a parecer que morri. Antes sair deu-me uma receita para aviar na farmácia mas quando olhei para o papel, não havia letra de médico. Tinha as palavras impressas a computador. Não percebi nada.

Anita Silva – 6 de Agosto de 2015

07 Aug 2015
07 Aug 2015

Anita Silva – Gramática da Fantasia / Gianni Rodari