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Le renverse du souffle – Paul Celan

Cresci no meio das ironias típicas dos anos 90 por – “coitada” – fazer parte do espectro monoparental. Numa casa de informação em que habitualmente via limitados os quatro canais de televisão, o maior entretenimento dos meus dias de criança seria passar um dia com a minha mãe pelos estúdios da TSF (antiga Rádio Jornal do Centro). Não dava para mais, não havia atividades extracurriculares – como o ballet, a natação, ou o ténis – mas existiram sempre duas coisas: vinis e livros. Fui irremediavelmente absorvida por ambos mas foram sempre os livros os que mais me cegaram – os que, ainda hoje, mais me cegam.

No meu quarto, ainda antes de ingressar no curso de Filosofia, houve sempre “umas” Fábulas de Esopo, “uma” Agatha Christie, “um” Sartre e “um” Nietzsche. Estranha combinação que me manteve o gosto pela singularidade de cada registo de escrita e me ofereceu uma solidão “acompanhada” que ainda hoje sinto, mesmo rodeada pela maior multidão.

Hoje direi – de Sylvia Plath a Dostoievski, de Al Berto a Rimbaud – o gesto de escolher um nome, de escolher um livro, sinto-o sempre como uma pequena transgressão…
E nela, no delito que aí se afigura incontornável, escolho as palavras que de modo mais marcante gravaram em mim essa estranha solidão – escolho um nome: Paul Celan, escolho um livro: Renverse du souffle, e um verso: «Le monde n’est plus, il faut que je te porte».

Lia Raquel Neves, 20 de Agosto de 2015

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