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Monthly Archives: February 2016

29 Feb 2016

Toda a Mafalda – Quino

Estive até à última para me decidir por um só livro. E quando digo até à última foi até a camera do Mário estar preparada para disparar. Toda a Mafalda do Quino, O Principezinho ou A Morte do Palhaço e o Mistério da Árvore do Raúl Brandão. Estou com os livros na mão. Sempre tive problemas com o escolher.

Mário: Qual é o que mais definiu a tua vida?

Toda a Mafalda. Sem piscar os olhos.

Mário: Ok, vamos começar. Descontrai. Queres que conte uma piada? Estás muito presa.

(É tão isso)
Este foi um dos primeiros livros que li, comprado numa feira do livro por uma amiga da minha mãe que me costumava levar a essas coisas, já que os meus pais nunca puderam. Aprendia a juntar as letras e a pronunciar palavras difíceis, para chegar a casa, sentar-me no chão do quarto e abrir o imenso livro para poder visitar os meus melhores amigos. De frisar que, como filha única que sou, este sentimento de companheirismo e amizade era mais que sentido.

As minhas perguntas difíceis, aquelas que filhos fazem aos pais, não foram o “De onde vêm os bebés?”, mas sim o que significa “reacção” e “liberdade”, palavras desenhadas quase sempre a bold, muito carregadas e muito grandes, que saiam da boca daquelas personagens. “Caramba. Se são tão grandes é porque devem ser importantes”. Os tempos em família começaram a ser constrangedores. Os meus pais, que nunca tiveram a oportunidade de estudar muito e que também nunca se interessaram por estes temas, despachavam e esquivavam-se sempre. Foi também quando algo se quebrou e percebi que os pais não sabem tudo, são humanos. A partir desse momento nascia em mim uma auto-didata. A tão moderna self made woman.

Entusiasmada pela busca solitária pelos significados das coisas, e algum aborrecimento à mistura, fez com que um dos livros que lesse a seguir fosse a Morgadinha dos Canaviais, um dos maiores livros que tínhamos em casa adquiridos numa daquelas colecções do círculo de Leitores, que só serviam para enfeitar as estantes da sala. Um romance clássico daqueles. Com tantas imagens e sensações completamente desconhecidas, não tinha referências para perceber aquelas formas de existir. Foi assim que descobri nomes, sintomas e terapêuticas de sentimentos e que, até hoje, se tornaram expectativas terríveis no campo amoroso.

A Mafalda foi real, ensinou-me o lado certo, educou-me e hoje em dia consegue dizer muita coisa sobre mim. A sátira, o chamado “mau-feitio”, a preocupação masoquista com o mundo que não se controla, a ansiedade entranhada, a “mania que é esperta” e que está sempre do lado certo, o ser opinadora compulsiva mesmo quando ninguém lhe pergunta nem quer saber a opinião…Com a enorme diferença de que sopa é das minhas coisas favoritas do mundo.

Cátia Domingues, 23 de Fevereiro de 2016

29 Feb 2016
29 Feb 2016

Cátia Domingues – Toda a Mafalda / Quino

22 Feb 2016

The Human Condition – Hannah Arendt

There is no other book I could choose. Other books have made a profoundly impression on me: Orwell’s Down and out in Paris and London, Brecht’s writings – especially when I was younger. But ever since I first read Arendt at University her writing has helped shape all the ideas through which I relate to the world around me. 

When you read something in which both the ideas and the language resonate deeply within you then that’s a transformative mental experience. Her thoughts helped me move from instinctive response to questions I care about to something more defined: like putting on a pair of glasses or climbing on a box for a better view over the fence. Or to put is as Arendt did when writing about truth, a ground to stand on and horizon above you.

Maybe Arendt is better known for her attempts to explain the political disasters of the 20th century in the ‘Origins of Totalitarianism’ or her at the time scandalous reports on Eichman in Jerusalem and the banality of evil that she believed to recognise there. But the human condition is her most philosophical and comprehensive work in terms of outlining an overarching theory.

There is no sentimentality, no easy reassurance, nothing that satisfies the need to feel-good or the need for a neat, closed explanation. This books for me represents an uncompromising commitment to justice, to politics and to the dignity of humans. But it’s also exhilarating: The beauty in the language, and the beauty of the unwavering commitment to it’s ideals and values.

And I admire the courage towards complexity without any desire for obscurity and the ability for descriptions that draw on many things but are aligned to none. I also admire the personal courage to take your positions without concessions that make it easy for people to place you in familiar categories. I don’t think anyone could claim Arendt compromised for approval,  her clarity of vision stayed in place even when it earned her condemnation from her peers, particularly in the wake of the Eichman trails. As someone who has never felt at home in any kind of grouping I’ve also always secretly and embarrassingly felt a kinship to the author who didn’t seem fully welcome anywhere, left or right.

For me Arendt is the only writer who understand the fullness of the human condition, from the intimacy of our individual existence to our responsibilities and need for a place in the wider world. Not as a compromise or balance, but two aspects of the same thing. As an author who understand the vulnerability of our private relationships but believes in the force of the political, who understands how we lose ourselves and become ourselves, she is a truly romantic political writer. Like the Schiele drawings I love, Arendt’s ideas have the strongest possible line filled with the most delicate colours. An unflinchingly, provocative look at humans that causes outrage in some, but that is never without tenderness. What Schiele manages in his drawings Arendt achieves with her ideas: boldness and sensitivity entirely without contradiction. If we choose not to avert our eyes we don’t sacrifice beauty but surpass it’s conventional form through the force and vulnerability of realty.


Não existe nenhum outro livro que eu pudesse escolher. Alguns livros causaram um profundo impacto em mim: Orwells Down And Out In Paris And London e escritos de Brecht – especialmente quando era mais nova. Mas desde que li Arendt na universidade que a sua escrita me tem ajudado a moldar as ideias através quais me relaciono com o mundo que me rodeia.

Quando se lê algo em que tanto as ideias como a linguagem ressoam profundamente em ti, isso torna-se numa experiência mentalmente transformadora. Os seus pensamentos ajudaram-me a alterar respostas instintivas a questões que me preocupam a algo mais definido: é como por um par de óculos ou subir para cima de uma caixa para se ter uma melhor visão do que se passa do outro lado da cerca. Ou para colocar a questão como Arendt colocou quando escreveu sobre a verdade, um lugar para nos posicionarmos e um horizonte por cima de nós.

Talvez Arendt seja mais conhecida pelas suas tentativas de explicar os desastres políticos do século XX em “ Origins of Totalitarism” ou no tempo dos relatórios escandalosos em “Eichmann in Jerusalem” e a banalidade da maldade que ela acreditava reconhecer ali. Mas a condição humana é o seu trabalho mais filosófico e exaustivo em termos de delinear uma teoria mais abrangente.

Não existe sentimentalismo ou fácil sensação de tranquilidade, nada que satisfaça a necessidade de nos sentirmos bem ou a necessidade de uma explicação sólida e conclusiva. Este livro representa para mim um compromisso intransigente com a justiça, a política e a dignidade do ser humano; A beleza da linguagem e a beleza do inabalável compromisso aos seus ideais e valores.

E eu admiro a coragem para a complexidade, sem qualquer desejo de obscuridade, e a capacidade de obter as descrições que se baseiam em muitas coisas, mas que não estão alinhadas a nenhuma. Também admiro a coragem pessoal para tomar posições sem concessões, tornando mais fácil para as pessoas colocarem-se em categorias familiares. Eu penso que ninguém pode argumentar que Arendt se comprometeu para obter aprovação, a sua clareza de visão ficou no lugar mesmo quando isso causou a sua a condenação pelos seus pares, particularmente na sequência dos ensaios de Eichmann. Como alguém que nunca se sentiu em casa em qualquer tipo de agrupamento, também eu senti secretamente e embaraçosamente uma identificação com o autor que não se sentia totalmente bem-vindo, tanto à esquerda como à direita.

Para mim Arendt é a única escritora que compreende a plenitude da condição humana, desde a intimidade da nossa existência individual às nossas responsabilidades e necessidade de um lugar no mundo. Não como um compromisso ou um equilíbrio mas como dois aspetos da mesma coisa. Como um autor que entende a vulnerabilidade das nossas relações privadas, mas acredita na força da política, que entende como nos perdemos e nos encontramos, ela é verdadeiramente uma escritora politicamente romântica. Como os desenhos de Schiele que eu amo, as ideias de Arendt são tanto quanto possível de uma linha muito forte, preenchida com as mais delicadas cores. Um olhar firme e provocador sobre os humanos que causa indignação em alguns, mas um olhar em que nunca falta a ternura. O que Schiele consegue com seus desenhos, Arendt alcança com suas ideias: ousadia e sensibilidade totalmente sem contradição. Se escolhermos não desviar o nosso olhar não sacrificamos a beleza, superamos sim a sua forma convencional através da força e vulnerabilidade da realidade.

Jenny Imhoff, February 12, 2016

22 Feb 2016
22 Feb 2016

Jenny Imhoff  – The Human Condition / Hannah Arendt