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Monthly Archives: March 2016

28 Mar 2016

Siddhartha – Hermann Hesse

Há 7 anos, “Siddhartha” veio parar às minhas mãos como um náufrago de uma viagem que não passou das primeiras páginas. Na época, partilhava um blog privado com algumas amigas, onde fazíamos trocas, devolvendo utilidade às inutilidades que cada uma tinha. Este livro foi-me entregue com a advertência que seria desinteressante. Demorou alguns meses até que espreitasse pela primeira vez para dentro das suas páginas e sentisse o cheiro doce do rio e os sons do bosque, vivos e pulsantes, à minha espera.

Mas esse dia chegou. Sem qualquer expectativa, e desconhecendo o destino desta jornada, comecei a percorrê-la devagar. A cada capítulo, uma parte supérflua de mim ia subtilmente sendo removida, ficando pelo caminho, que prossegui com perseverança, em velocidade de cruzeiro. Não foi amor à primeira página. Contudo, a dado momento, “Siddhartha” era eu, os seus pensamentos eram os meus e, no fim, o rio de águas cristalinas que percorreu toda a narrativa veio desaguar nos meus olhos. Nunca mais fui a mesma.

Como se a história passasse das folhas de papel para a vida real, deixei para trás as minhas posses, relações, apegos e até o próprio livro, que permaneceu vivo em mim. Anos depois, foi-me oferecido outro exemplar, com uma dedicatória cheia de amizade e bondade e, assim, recuperei as palavras escritas de uma viagem de onde nunca mais se regressa.

Sinto-me a cometer uma deslealdade para com o brilhante e refinado Eça de Queiroz e todos os seus  livros que fizeram parte da minha vida, Gabriel García Marquez e os saturninos “Cem Anos de Solidão” onde mergulhei de cabeça, Henri Charrière e “Papillon”, que vivi intensa e dolorosamente. Porque também estes são os meus preferidos. Mas “Siddhartha”… é o tal.

Na noite anterior à sessão fotográfica, deitei-me apreensiva com a perspectiva de ter de escrever sobre um livro que não se pode explicar por palavras, não me achando digna de dissertar sobre o seu conteúdo sem o desrespeitar. Adormeci, e sonhei que a personagem principal de “Siddhartha” se sentava à minha frente, revelando-me que guardo algo mágico e valioso. Mostrou-me o que era. De manhã, a luz que envolvia o sonho transbordou sobre o livro, iluminado pelo Sol que entrava a jorros pela janela. O livro voltou a falar, o rio a correr, as árvores a abraçarem-me. Com humildade e gratidão.

Hazel Claridade – 27 de Março de 2016

28 Mar 2016
28 Mar 2016

Hazel Claridade – Siddhartha / Hermann Hesse

14 Mar 2016

A Taberna – Emile Zola

Na casa da minha avó havia uma dispensa, onde estava também a oficina do meu avô, onde estava também a biblioteca. Biblioteca, essa, que tinha apenas três livros; A Taberna do Émile Zola, A Terra, também do Émilie Zola, e um anuário em inglês, The South and East African Year Book and Guide, de 1921.

A minha avó era analfabeta e o meu avô, que tinha feito a 2ª classe à pressa, dizia que tinha aprendido realmente a ler em casa com ajuda da Cartilha Maternal de João de Deus. Gosto de pensar que os livros do Zola também deram uma ajuda. Pelo menos gosto de ter essa ideia romântica de imaginar o meu avô, depois de estudar as letras na cartilha, a ter o desejo de as ver todas juntas a formar uma frase, e depois ter o prazer de descobrir o sentido dessa frase. Depois da morte do meu avô os livros continuaram no seu lugar, e só de lá saíram quando a minha avó morreu e fiquei eu na posse da “biblioteca da família”. Essa parca biblioteca caseira a que se juntavam duas ou três “anitas”, e as “As Histórias do avozinho” não me impediu desde cedo de procurar o que me fazia falta, mais livros. É aquilo que eu chamo na brincadeira de “determinismo 0, Isabel Mões 1; não tens, por conta dessa condição o mais lógico é não ires procurar, mas tens uma vontade inexplicável de procurar na mesma.

Com 17 anos era uma assídua frequentadora da Biblioteca Municipal de Belém, passando horas a escolher autores nos pequenos quadrados de cartão. Um dia, com vinte e poucos anos, li finalmente A Taberna e fiquei fascinada. Fiquei fascinada em primeiro lugar porque achei o Zola parecido com o meu escritor de eleição na altura, Dostoievski, e depois porque me surpreendeu a maneira como ele consegue descreve com tanta acutilância e humanidade aquela comunidade de operários nos arrabaldes de Paris no final do século XIX. Não é um retrato fútil e exterior de quem vê de fora, é um retrato de pormenor, descrevendo sem contemplações as condições de vida daqueles trabalhadores, as ruas, as casas, os pátios, as relações entre as pessoas, etc.

A tudo isso juntamos uma extraordinária personagem principal, Gervásia, uma mulher que luta contra todas as adversidades por uma vida mais digna, porque acha possível, porque tem de ser possível viver de outra maneira. E essa vida, naquela comunidade de operários, transportou-me para a minha infância, para o bairro onde eu cresci. Noutro tempo, é certo, mas com a mesma vivência de um bairro operário, onde a vida se fazia à conta de muito sacrifício. Um bairro com zaragatas por quase nada, com as mantas no verão estendidas à soleira da porta, com árvores de fruto para roubar nêsperas e figos, com pedra na calçada para esfolar os joelhos, com uma taberna ao cimo da travessa, onde de vez em quando assomava um miúdo para ir buscar o pai que tardava, com mercearias de comprar fiado, com a solidariedade e união de quem sabe que só nos temos uns aos outros.

Conheci algumas “Gervásias” no meu bairro e na minha família, conheci muita gente parecida com as personagens do Zola, conheci aquela tristeza, igual à tristeza do livro, a tristeza que nos vai invadindo à medida que tudo se vai desmoronando e a esperança de um final feliz vai desaparecendo.

14 Mar 2016
14 Mar 2016

Isabel Mões – A Taberna / Emile Zola

07 Mar 2016

Americanah – Chimamanda Ngozi Adichie

Quando pensei num livro para este projecto, foi a poesia que, enquanto meu grande amor, considerei primeiro. Daniel Faria? José Tolentino Mendonça? Leonard Cohen? Ou mesmo Pessoa, o incontornável, o deus? Poderia citar tantos outros nomes, em relação a contos ou romances, como os de Capote ou de Carson McCullers, que li e reli várias vezes, como sempre faço. Quanto mais os dias passavam, contudo, e a curiosidade me levava a descobrir as outras raparigas e os seus livros, mais me apercebia do quão simples e crua a resposta teria de ser. Foi quando pensei em Americanah, de Chimamanda Ngozi Adichie, nigeriana, autora, activista e feminista. O objecto-livro, em si, foi-me oferecido à saída de uma peça de teatro a que assistira, pelo amigo que me acompanhou, actor amador por sinal, como que numa troca leve mas pejada de afecto. Um livro feito à medida, para mim. Escrito por alguém como eu, alguém que eu pudesse admirar. Raça, corpo, trabalho ilegal, relações inter-raciais, corrupção, religião, suicídio e depressão infanto-juvenil, discriminação, imigração. Estes são alguns dos temas retratados em Americanah, que nunca deixa de se ir afirmando mais e mais como uma história de amor, seja a passada entre Ifemelu e Obinze, ou entre Ifemelu, a Tia Uju e o seu filho Dike ou, ainda, a de Ifemelu consigo mesma.

(…)

– Então, que tal correu o ATL?

– Bem. – Uma pausa. – A chefe do meu grupo, a Haley? Deu protector solar a toda a gente, mas a mim não me quis dar. Disse que eu não precisava.

Ela olhou para o seu rosto, que estava quase sem expressão, assustadoramente sem expressão. Não sabia o que dizer.

– Ela julgou que por tu seres escuro não precisavas de protector solar. Mas precisas. Muitas pessoas não sabem que quem tem a pele escura também precisa de protector solar. Eu compro-to, não te preocupes. – Estava a falar demasiado depressa, sem ter a certeza se estava a dizer a coisa certa ou qual seria a coisa certa a dizer, e preocupada, porque aquilo o tinha incomodado o suficiente para ela o ter visto no seu rosto.

– Não tem mal – disse ele. – Até foi, tipo, engraçado. O meu amigo Danny até se riu.

– Porque é que o teu amigo achou que era engraçado?

– Porque era!

– Mas tu querias que ela também te desse protector solar, não querias?

– Acho que sim – disse ele com um encolher de ombros. – Só quero ser normal.

Ela abraçou-o. Mais tarde, foi à loja e comprou-lhe um grande frasco de protector solar e da vez seguinte que veio de visita viu-o pousado na cómoda dele, esquecido e por usar. (…)

Ifemelu não é a minha primeira heroína negra de um romance. Seria impossível esquecer a corajosa Celie, d’ A Cor Púrpura, de Alice Walker. Mas Ifemelu vive no mundo contemporâneo, no meu mundo. Tem como eu a escrita como vocação, realizou o meu sonho de há muitos anos de ir viver para Nova Iorque, e regressou ao país onde nasceu. Eu nasci na Guiné-Bissau, vim muito pequena para Portugal, e espero voltar, pelo menos para conhecer o meu país de origem, em breve. Há vários despertares ao longo do livro, mais ou menos agradáveis, mas sempre acutilantes e precisos na sua continuidade, sendo talvez o principal o ser obrigada a aperceber-se da sua cor. Antes da Nigéria, Ifem era apenas ela mesma. Ao chegar à América passa a ser uma negra, uma estrangeira, alguém que não pertence, depositária de mitos, fetiches, ignorâncias e curiosidades alheias, uma parte da minoritária massa sem rosto. Aos poucos vai aprendendo a lidar consigo e com os restantes, e o seu blog acaba por influenciar positivamente quer a sua própria vida, quer a dos outros.

(…) Abe, que gostava bastante dela, que a achava inteligente e engraçada, até mesmo atrente, mas que não a via como mulher. Ela sentia curiosidade por Abe, mas todo o seu namoriscar não passava para ele de mera simpatia. Abe arranjar-lhe-ia um encontro com um amigo negro se tivesse um amigo negro. Ela era invisível para Abe. Aquilo esmagou-lhe a paixoneta e talvez a tenha feito também não reparar em Curt. (…)

Numa altura em que se discute o sentido que faz ainda constarem dos manuais escolares portugueses certos textos e expressões que apelam ao racismo, ao bullying, ao fatshaming; numa altura em que, ao fazer-se um filme sobre Nina Simone, a actriz escolhida para interpretar este ícone, Zoe Saldana, tem uma tez tão mais clara que se faz blackface de uma negra, em vez de se dar o papel a outra actriz; numa altura em que, há poucos meses, na Universidade de Direito de Harvard, alguém colou fita-cola preta nas fotos de antigos alunos, é imperativo que nos eduquemos e aos outros, é imperativo ver que Americanah poderia ser, também, “Europeiah”, por exemplo, e não baixar os braços, nem cerrar os olhos ou os ouvidos a outras cores e vozes. E ler, ler muito, porque um livro continua a poder mudar o mundo.

Gisela Casimiro – 3 de Março de 2016

07 Mar 2016
07 Mar 2016

Gisela Casimiro – Americanah / Chimamanda Ngozi Adichie