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Monthly Archives: May 2016

23 May 2016

Der Undertan – Heinrich Mann

Li o livro “Der Untertan” (traduzido para português por “O Súbdito”), de Heinrich Mann, pela primeira vez quando tinha 14 anos, incentivada pela minha então professora de alemão e carismática mentora da liberdade de pensamento que desde cedo nos ensinou algo simples: só entendemos o valor da liberdade se percebermos o valor da ausência dela, conforme descrito pelos pensadores do seu país. Aliás, entender o presente da Alemanha era indissociável do seu passado mais recente e, como tal, Frau Homberg, professora por convicção e mentora de vidas livres por missão, achava por bem fazer-nos declamar partes do livro em voz alta. Como se a teatralidade da representação nos fizesse entender melhor o peso de tamanho palavrão sobre o qual recaíam a maior parte dos temas das aulas: liberdade!
Heinrich Mann retrata n’O Súbdito a vida de Diederich Hessling, um pequeno industrial, em Berlim, fanático admirador e subserviente à ordem prussiana. A partir desta caricatura, Mann desenha o perfil social e político de Alemanha dos finais do Século XIX, criticando satiricamente toda a ligação ao militarismo e autoritarismo, a rigidez de costumes e a propensão para a criação de uma sociedade dirigida no sentido da guerra. À primeira vista, a caricatura sarcástica do protagonista do livro, ruim, maléfico e seguidor cego da ordem política e militar, Diederich Hessling, é o fruto típico de uma classe de obedientes súbditos de um regime prussiano. Contudo, Heinrich Mann estava muito à frente do seu tempo. Criticando a sociedade sombria e nebulosa sua contemporânea, O Súbdito é um texto inacreditavelmente profético, uma antevisão da decadência dos valores da democracia e da liberdade que Heinrich Mann tanto defendia.
À luz da história compreendemos que este escritor de pensamento profundamente democrático visse o seu livro censurado aquando do lançamento em 1914. Somente em 1919 recebeu permissão para a sua divulgação. Na Reichskristallnacht viu os seus livros arderem na praça pública. Como tal, este homem de pensamento livre não viu outra solução senão fugir, primeiro para França, tendo passado depois por Lisboa para embarcar rumo aos Estados Unidos. Hoje, a Constituição alemã consagra os direitos fundamentais à liberdade dos cidadãos: “A dignidade da pessoa humana é intangível. Respeitá-la e protegê-la é obrigação de todo o poder público.”
Cruzam-se os tempos, cruzam-se os espaços. Heinrich Mann, nascido no seio de uma família alemã burguesa e crítico de uma sociedade político-militar, passou por Portugal, local de embarque para os EUA. Décadas mais tarde, Lisboa, a cidade que lhe serviu de passagem para a vida em liberdade, viu-me nascer. Quis o destino que o país que negou a Heinrich Mann uma vida em liberdade seja hoje o meu país de residência. É no centro da governação militar de então que se vive hoje um clima de democracia e direitos dos cidadãos na cidade que me acolheu para eu viver: Berlim.

Maria Conceição Pires – 22 de Maio de 2016

23 May 2016
23 May 2016

Maria Conceição Pires – Der Untertan (O Súbdito) / Heinrich Mann

02 May 2016

O livro da minha vida – Sara F. Costa

Ao pensar nos livros da minha vida percorro o passado, para lá da infância onde me deparei com Álvaro de Campos –numa idade em que ninguém deve ler Álvaro de Campos – e comecei a achar que a morte não era um sítio assim tão importante. Vários livros de áreas diversas exerceram a sua influência no meu percurso de vida, um mais académico e outro puramente artístico ou literário. Por isso vou restringir esta escolha a esse percurso artístico, diminuo a escolha àqueles que me fizeram escrever. Tenho dois títulos em mente “O Medo” de Al Berto e “Ou o poema contínuo” de Herberto Helder. Foi num contacto adolescente com a poesia destes neo-simbólicos surrealistas que eu descobri o universo poético tal como o concebo. É em 2001 que é lançada esta criteriosa, minuciosa seleção poética de Herberto Helder sucessora da Poesia Toda (1971), “Ou o poema contínuo”. A noção de que cada poema nunca existe de forma insulada, que toda a poética se agrega e dessa maneira agregadora reproduz novas realidades líricas. Mas Herberto Helder não foi o primeiro, eu leio-o muito jovem em simultâneo com os poetas malditos franceses que tanto me seduziam: Baudelaire, Rimbaud, Pierre Reverdy, Lautréamont, Laforgue, todos esses simbolistas. As minhas influências assim uma mistura de simbolismo francês e surrealismo português. Em Portugal os meus surrealistas desdobram-se em influências várias. Autores como Cruzeiro Seixas, António Pedro, António Maria Lisboa, Manuel de Lima, Ernesto Sampaio, Mário Henrique Leiria e obviamente Mario Cesariny e a sua “Intervenção Surrealista”, não podem escapar a uma verdadeira amante do surrealismo. Mas aos dezassete, quando edito o meu primeiro livro, a poética herbertiana dominava quase lascivamente o principal motivo pelo qual me apetecia escrever: a escrita como única forma possível de expansão da leitura. Queria também eu produzir um poema contínuo e ainda persigo esta ideia, passados onze anos. A escrita de HH não é só um poema infinito, cuja releitura se traduz em nova produção, é também uma arte totalmente paralela à música e à arte plástica. Na minha conceção de poesia ela também é mesmo assim: parte música e parte imagem. Uma forma de arte total e absoluta, abjecionista, surrealista e dadaísta. É isto que se encontra neste livro. Um livro que se constrói “segundo as aspirações pessoais do idioma” (p.6) numa clara declaração belicista contra a língua, ainda que  assumindo a contradição do discurso poético que a renova, a língua enquanto “Devastação Inteligente”.

Sara F. Costa – 25 de Abril de 2016

02 May 2016
02 May 2016

Sara Costa – Ou o poema contínuo / Herberto Helder