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Monthly Archives: June 2016

20 Jun 2016

Obra Poetica – Sophia de Mello Breyner Andresen

Poesia….quase sussurrada…como uma oração…tal como a fé, algo de tão pessoal e íntimo, sentido dentro da minha alma. Assim foi a poesia para mim durante muitos anos, tantos, que lhes posso atribuir uma eternidade. Seria dificil explicar a razão; as almas introvertidas e sensiveis padecem por vezes de males que não são deste mundo, inexplicáveis. Talvez porque a poesia, se exultada abertamente, revelaria o ser que habitava nas profundezas do meu mar, um ser que se vestia de vetustos recifes de corais, calcificados pelo tempo, protegido pela escuridão profunda do mar.

Entre muitos poetas cujas palavras me beijaram “como se tivessem boca, palavras de amor, de esperança, de imenso amor, de esperança louca” como Alexandre O’ Neill tão perfeitamente definiu, encontrei numa fase de encruzilhada e subsequente ruptura na minha vida, Sophia de Mello Breyner. Recordo vividamente o efeito que  em mim surtiu, um pequeno poema em particular:

“Pudesse eu não ter laços nem limites

Ó vida de mil faces transbordantes

Pra poder responder aos teus convites

Suspensos na surpresa dos instantes”

Que vida é aquela em que nos limitamos, nos constringimos, como um corpete fosse de apertados laços? Nascemos livres de preconceitos, de limitações; como crianças todos os sonhos são possiveis, todas as perguntas ingénuas, todas as respostas puras… e depois crescemos condicionados por tantos factores externos a nós próprios: a familia, a sociedade, a religião, as convenções sociais, a educação rígida e cientifica, estéril de poesia, de sonho, de paixão, de alma!

A obra de Sophia de Mello Breyner, tornou-se uma quase bíblia para mim, repleta de anotações, de referências em que eu me revia em tantas facetas da minha vida. A sua poesia de uma certa forma iniciou um processo irreversível na minha vida, acordei de um sono profundo ao compreender as palavras de Sophia: “bailarina fui mas nunca dançei, em frente das grades só três passos dei” e assim iniciei a procura desse Santo Graal, a que chamei poesia na minha própria vida. Um dique que durante uma eternidade conteve a minha verdadeira essência, deu finalmente de si, deixando as águas correrem livremente, inundando tudo em seu redor.

O amor de Sophia pelo mar, as suas inúmeras e belas referências a este tema, são por si só arte, inspiração pródiga. Com ela, permiti-me, retirei o corpete que me cingia e aventurei-me na busca da Primavera e da “vida multiplicada e brilhante, em que é pleno e perfeito cada instante”.

A poesia gritou então livre dos meus pulmões, sem pudor.

Toda a liberdade tem um preço e contudo é exactamente esse preço que nos faz valorizá-la; a liberdade de nos permitirmos ser a nossa própria essência, única, bela, louca por vezes, incompreendida tantas outras, mas sentida, vivida com paixão, com algumas lágrimas pelo caminho, mas sobretudo…com Alma, lavada pelas ondas do mar azul e profundo.

Liberdade

Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.

Sophia de Mello Breyner

Agradeço aqui  textualmente ao Mário pelo nosso encontro numa noite dedicada à Poesia, que me permitiu colaborar de alguma forma neste projecto que é belo, que é ele próprio uma forma de arte. Obrigada Mário, por teres permitido que aquele vestido guardado há quase 15 anos num armário ( e que como tu disseste esperou pacientemente por este dia) pudesse através da tua câmara, simbolizar a bailarina que em frente às grades só três passos deu mas que dá agora passos maiores depois de se ter permitido a abrir por si própria essas mesmas grades.

Helena D’Almeida – 19 de Junho de 2016

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Poetry….almost whispered…like a prayer… as faith, something so personal and intimate, felt inside my soul. And so this is how poetry was for me for many years, so many, that I can call them an eternity. It would be difficult to explain the reason for this; introvert and sensitive souls sometimes suffer from ailments that are not of this world, unexplainable. Perhaps because poetry, if overtly exulted, would reveal the being that inhabited the depths of my sea, an entity that enrobed itself of ancient coral reefs, calcified by time, cocooned by the deep darkness of the sea.

Amongst many poets whose words kissed me “as if they had mouth, words of love, of hope, of immense love, of insane hope “, as Alexandre O’ Neill beautifully put it, I found Sophia de Mello Breyner during a phase  in my life where I stood at a crossroad and subsequent rupture in many core areas.  I vividly recall the effect that a small particular poem had in me:

“If only I could have neither ties nor limits

Oh life full of thousand faces…

And I would accept your invitations

Suspended in the surprise of the instances”

What life is that in which we limit ourselves, we constrict ourselves, as if it was a corset of tight laces? We come to this world free of prejudices, of limits; as children all dreams are possible, all questions naive, all answers pure… and later on we grow up confined by so many external factors outside ourselves: family, society, religion, morals, social conventions and a strict and scientific education, sterile of poetry, of dream, of passion, of soul!

Sophia de Mello Breyner’s work became almost a bible to me, full of annotations, of references in which I would see myself in so many facets of my life. Her poetry, in a way triggered an irreversible process in my life, having woken from a deep sleep after a sudden insight understanding Sophia´s words: “ballerina I was but I never danced, in front of the cage grid no more than three steps I took” and so I started the quest for that Holy Grail, which I called poetry for my own life. A dam that for an eternity had held back my true essence, finally gave in, allowing for the water to run freely, flooding everything around it.  

Sophia´s love for the sea, its multiple and beautiful references to that theme, are just by itself art, prodigal inspiration.  By virtue of her own words, I allowed myself, I removed the corset that constricted me and ventured into the search of that Spring and “of life bright and multiplied, in which it is complete and perfect each instant”.

Poetry cried out then, free, from my lungs, without shame.

All freedom has a price and yet it is that exact price that allow us to value it; the freedom of allowing ourselves to be our own essence, unique, beautiful, sometimes with a bit of madness, other times not understood, but always felt, lived with passion, with some tears along the way, but above all…with Soul, washed away by the waves of a deep blue sea.

Helena D’Almeida – June 19, 2016

20 Jun 2016
20 Jun 2016

Helena D’Almeida – Obra Poética / Sophia de Mello Breyner Andresen

14 Jun 2016

Tao Te Ching – Lao-Tse

Tao Te Ching, “Livro que leva à Divindade” ou “O Livro que revela Deus” , nasceu na China há dois mil e seiscentos anos. Encontra-se entre os Grandes Livros da História da Humanidade. Os seus 81 pequenos aforismos contêm em si uma sabedoria profunda que veio a inspirar diversas filosofias e religiões, principalmente o Taoísmo e o Budismo Zen.

Lao significa idoso, maduro, sábio que significa literalmente ancião, com o sentido de espiritualmente maduro. Tsé é o sufixo de muitos nomes chineses, significando menino, menina, jovem, adolescente. Lao-Tsé é, pois, o jovem sábio, o adolescente maduro.

Os aforismos contêm paradoxos, “paradoxo” do grego ou absurdo do latim quer dizer “além da mente”, “ultramental”, referindo-se a uma verdade que a inteligência não pode alcançar, nem afirmar nem negar. Esta dimensão espiritual, para além do racional, essa dimensão absurda e paradoxal, a que não se acede por via da mente é, pois, a contemplada no livro. Se  quem lê não estiver já para ela desperto dificilmente compreenderá o verdadeiro sentido da filosofia de Lao-Tsé. É um livro que parte da experiência cósmica, da alma cósmica, da vivência silenciosa, da verdade interior.

O próprio nome traduz essa intenção. Tao, o absoluto, o Infinito, a Essência, a Suprema Realidade, a Divindade, a Inteligência Cósmica, a Vida Universal, a Consciência Invisível, o Insondável,… bem distinto do Deus representado num ser como sucede nas teologias ocidentais. Te pode ser traduzido por caminho, directriz, revelação. Ching, livro, documento, escrito.

O livro é como um fio de Luz sobre a experiência do Infinito, do Absoluto. Na edição traduzida para português da Martin Claret, as notas do tradutor ajudam a compreender a sabedoria que corre o risco de ser para alguns demasiado hermética.

Este livro é também o elogio do homem sábio e da humildade. Deixo o poema número 24 para despertar à leitura:

“Quem se ergue na ponta dos pés

Não pode ficar por muito tempo

Quem abre demais as pernas

Não pode andar direito

Quem se interpõe na luz

Não pode luzir.

Quem dá valor a si mesmo

Não é valorizado.

Quem se julga importante

Não merece importância.

Quem se louva a si mesmo

Não é grande.

Tais atitudes são detestadas

Pelos poderes celestes.

Detesta-as também tu, ó homem sapiente.

Quem tem consciência da sua dignidade,

De ser veículo do Infinito,

Se abstém de tais atos”.

Senti depois de o ler há cerca de um ano atrás que era importante que este livro – que me chamava há algum tempo – estivesse à minha cabeceira, junto a outros igualmente fundamentais. Ele foi livro de cabeceira de reis, chefes de estado e grandes líderes espirituais que beberam na sua Sabedoria, como na Fonte Sagrada.

Acho que os livros chamam as pessoas e que, no momento certo, chegam até nós os livros que nos podem ensinar o que necessitamos de aprender.

Lê-lo e relê-lo fortifica o sentimento de Paz interior, de que existe algo de mais profundo e com sentido para além do turbilhão das emoções e dos acontecimentos com que a vida nos vai confrontando, de caminho intuitivo do Universo quando para isso estamos despertos, de que o verdadeiro Mestre e o verdadeiro Deus residem dentro de nós e que é pela abertura espiritual, pelo silenciamento, pelos actos de amor e de compaixão para com os outros, pela escuta atenta do nosso Eu interior que se encontra o caminho da Verdade. Bondade, suficiência e modéstia representam o carisma do Homem cósmico, do homem que ligado ao cosmos, se assume como eterno aprendiz mesmo sendo um verdadeiro Mestre.

É estranho que muitos dos livros da sabedoria universal sejam desconhecidos da maioria das pessoas que preferem livros de leitura mais fácil e mais superficial. São sinais dos tempos de superficialidade e da cultura do descartável em que vivemos. Apesar de ter milhares de anos e de ter sido escrito no contexto da sociedade chinesa do seu tempo, a sabedoria amadurecida que transmite é universal, bem pertinente e adequada na reflexão sobre as grandes questões que marcam o nosso tempo.

Joana Miranda – 9 de Junho de 2016

14 Jun 2016
14 Jun 2016

Joana Miranda – Tao Te Ching / Lao-Tsé

06 Jun 2016

O Lobo das Estepes – Hermann Hesse

Adoro ler. Os livros serão das poucas coisas, (acho que até únicas mesmo), que não empresto a ninguém. Normalmente tem algumas notas minhas, emoções que senti na sua leitura. Gosto de os folhear de volta e em vez, sentir o seu cheiro. Tenho alguns na minha mesa de trabalho, para que não me esqueça de algumas emoções que quero ter presente na minha vida. Assim fica fácil de os relembrar e que sejam ancoras positivas para me acompanharem.

Quando fui convidada para ser uma Book Loving Girls confesso que o coração ficou cheio. Este projeto Book Loving Girls é simplesmente lindo, adorei assim que o Mário Pires o descreveu. Nos últimos tempos e devido a minha profissão tive que aprender a ser fotografada, foi fácil ser vista pelo olhar da camara do Mário mas foi estranhamente surpreendente para mim fazer a partilha de algo que considero ser tao intimo. Quando vi as fotografias senti esse lado mais tímido que tenho. Posso descrever que tínhamos o vento a dançar com todos os registos. Mágico e único.

E foi assim, dancei e recuei no tempo para pensar qual o meu livro. São tantos. Gosto de tantos. Mas fiz esta viagem e escolhi o Lobo das Estepes de Hermen Hess. Já o li 3 vezes, em diferentes fases da minha vida. Foi mágico ver o quanto eu tinha mudado desde a ultima vez que o li. Na vida fui descobrindo a dualidade do Ser. O meu lado emotivo ou mais racional. Mas esta duvida das duas faces da alma por vezes tornou-se em angustia que não resolvi com a constatação destes antagonismos. Aos poucos fui descobrindo que o nosso Ser é muito mais, é uma força imensa. Muitas vezes complementam-se, outras vezes não são compatíveis o que nos causa desespero. Precisei de ter um autoconhecimento e compreensão profunda do meu Ser e do sentido da vida mas só quando enfrentei e assumi estas múltiplas dimensões consegui encontrar a felicidade. Para mim esta é grande mensagem deste livro. Muita coisa mudou, “(…) Ainda um dia havia de aprender a rir. (…) e sim aprendi a rir, aprendi a sorrir e nunca mais parei.

Obrigada Mario Pires por me teres permitido fazer esta viagem.

Raquel Soares – 3 de Junho de 2016

06 Jun 2016
06 Jun 2016

Raquel Soares – O lobo das estepes / Hermann Hesse

01 Jun 2016

Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres – Clarice Lispector

Não sei há quanto tempo o tenho, mas há muito,

E lembro-me que o que me atraiu foi a capa. Lembro-me de o ter folheado na livraria e de bater com os olhos neste parágrafo:

“Pareceu-lhe então, meditativa, que não havia homem ou mulher que por acaso não se tivesse olhado ao espelho e não se surpreendesse consigo próprio. Por uma fracção de segundo a pessoa se via como um objecto a ser olhado, o que poderiam chamar de narcisismo mas, já influenciada por Ulisses, ela chamaria de: gosto de ser.” – uma aprendizagem ou o livro dos prazeres – Clarice Lispector

Fiz um quadro para o meu quarto com estas palavras.

Nunca o guardei como uma história bonita, como um romance, embora o fosse, e também não era simples de ler; havia o “problema” de estar em brasileiro. Gosto de ouvir brasileiro mas não de me ouvir pensar assim, se é que me faço entender.

Não era a minha história preferida, essa era “O Amante” de Marguerite Duras.

Não sei quantas vezes li “o Amante” mas mais de dez vezes certamente, mas este li mais. Li mais vezes em frases soltas.

E guardei-o, no sentido mesmo de tesouro; estava sempre por perto, na mesa de cabeceira,  ou no saco quando precisava de inspiração. com frases sublinhadas, páginas dobradas. Era uma espécie de livro companhia e nunca mais encontrei um que gostasse tanto.

Quando o abro, é como um espelho, que reflecte a mulher, as mulheres, e os homens que finalmente aprendem sobre si, e se reconhecem com os seus desejos, os medos, e se aceitam, não apenas por aceitar, mas porque a uma certa altura aprendem a gostar de si. Só quando gostamos de nós, podemos aprender a gostar de um outro.

É como se quando o abro me recorde sempre que podemos olhar-nos, e gostar de nós, sem pensar que somos lindas de morrer ou mais do que os outros. Somos apenas gente e podemos gostar do que vemos. É permitida essa ousadia de finalmente nos reconhecermos. Não precisar-mos de um alter-ego. Apenas o Eu.

“ele dissera uma vez que queria que ela, ao lhe perguntarem seu nome, não respondesse ‘Lóri’ mas que pudesse responder "meu nome é eu”.

Zélia Évora – 1 de junho de 2016