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Obra Poetica – Sophia de Mello Breyner Andresen

Poesia….quase sussurrada…como uma oração…tal como a fé, algo de tão pessoal e íntimo, sentido dentro da minha alma. Assim foi a poesia para mim durante muitos anos, tantos, que lhes posso atribuir uma eternidade. Seria dificil explicar a razão; as almas introvertidas e sensiveis padecem por vezes de males que não são deste mundo, inexplicáveis. Talvez porque a poesia, se exultada abertamente, revelaria o ser que habitava nas profundezas do meu mar, um ser que se vestia de vetustos recifes de corais, calcificados pelo tempo, protegido pela escuridão profunda do mar.

Entre muitos poetas cujas palavras me beijaram “como se tivessem boca, palavras de amor, de esperança, de imenso amor, de esperança louca” como Alexandre O’ Neill tão perfeitamente definiu, encontrei numa fase de encruzilhada e subsequente ruptura na minha vida, Sophia de Mello Breyner. Recordo vividamente o efeito que  em mim surtiu, um pequeno poema em particular:

“Pudesse eu não ter laços nem limites

Ó vida de mil faces transbordantes

Pra poder responder aos teus convites

Suspensos na surpresa dos instantes”

Que vida é aquela em que nos limitamos, nos constringimos, como um corpete fosse de apertados laços? Nascemos livres de preconceitos, de limitações; como crianças todos os sonhos são possiveis, todas as perguntas ingénuas, todas as respostas puras… e depois crescemos condicionados por tantos factores externos a nós próprios: a familia, a sociedade, a religião, as convenções sociais, a educação rígida e cientifica, estéril de poesia, de sonho, de paixão, de alma!

A obra de Sophia de Mello Breyner, tornou-se uma quase bíblia para mim, repleta de anotações, de referências em que eu me revia em tantas facetas da minha vida. A sua poesia de uma certa forma iniciou um processo irreversível na minha vida, acordei de um sono profundo ao compreender as palavras de Sophia: “bailarina fui mas nunca dançei, em frente das grades só três passos dei” e assim iniciei a procura desse Santo Graal, a que chamei poesia na minha própria vida. Um dique que durante uma eternidade conteve a minha verdadeira essência, deu finalmente de si, deixando as águas correrem livremente, inundando tudo em seu redor.

O amor de Sophia pelo mar, as suas inúmeras e belas referências a este tema, são por si só arte, inspiração pródiga. Com ela, permiti-me, retirei o corpete que me cingia e aventurei-me na busca da Primavera e da “vida multiplicada e brilhante, em que é pleno e perfeito cada instante”.

A poesia gritou então livre dos meus pulmões, sem pudor.

Toda a liberdade tem um preço e contudo é exactamente esse preço que nos faz valorizá-la; a liberdade de nos permitirmos ser a nossa própria essência, única, bela, louca por vezes, incompreendida tantas outras, mas sentida, vivida com paixão, com algumas lágrimas pelo caminho, mas sobretudo…com Alma, lavada pelas ondas do mar azul e profundo.

Liberdade

Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.

Sophia de Mello Breyner

Agradeço aqui  textualmente ao Mário pelo nosso encontro numa noite dedicada à Poesia, que me permitiu colaborar de alguma forma neste projecto que é belo, que é ele próprio uma forma de arte. Obrigada Mário, por teres permitido que aquele vestido guardado há quase 15 anos num armário ( e que como tu disseste esperou pacientemente por este dia) pudesse através da tua câmara, simbolizar a bailarina que em frente às grades só três passos deu mas que dá agora passos maiores depois de se ter permitido a abrir por si própria essas mesmas grades.

Helena D’Almeida – 19 de Junho de 2016

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Poetry….almost whispered…like a prayer… as faith, something so personal and intimate, felt inside my soul. And so this is how poetry was for me for many years, so many, that I can call them an eternity. It would be difficult to explain the reason for this; introvert and sensitive souls sometimes suffer from ailments that are not of this world, unexplainable. Perhaps because poetry, if overtly exulted, would reveal the being that inhabited the depths of my sea, an entity that enrobed itself of ancient coral reefs, calcified by time, cocooned by the deep darkness of the sea.

Amongst many poets whose words kissed me “as if they had mouth, words of love, of hope, of immense love, of insane hope “, as Alexandre O’ Neill beautifully put it, I found Sophia de Mello Breyner during a phase  in my life where I stood at a crossroad and subsequent rupture in many core areas.  I vividly recall the effect that a small particular poem had in me:

“If only I could have neither ties nor limits

Oh life full of thousand faces…

And I would accept your invitations

Suspended in the surprise of the instances”

What life is that in which we limit ourselves, we constrict ourselves, as if it was a corset of tight laces? We come to this world free of prejudices, of limits; as children all dreams are possible, all questions naive, all answers pure… and later on we grow up confined by so many external factors outside ourselves: family, society, religion, morals, social conventions and a strict and scientific education, sterile of poetry, of dream, of passion, of soul!

Sophia de Mello Breyner’s work became almost a bible to me, full of annotations, of references in which I would see myself in so many facets of my life. Her poetry, in a way triggered an irreversible process in my life, having woken from a deep sleep after a sudden insight understanding Sophia´s words: “ballerina I was but I never danced, in front of the cage grid no more than three steps I took” and so I started the quest for that Holy Grail, which I called poetry for my own life. A dam that for an eternity had held back my true essence, finally gave in, allowing for the water to run freely, flooding everything around it.  

Sophia´s love for the sea, its multiple and beautiful references to that theme, are just by itself art, prodigal inspiration.  By virtue of her own words, I allowed myself, I removed the corset that constricted me and ventured into the search of that Spring and “of life bright and multiplied, in which it is complete and perfect each instant”.

Poetry cried out then, free, from my lungs, without shame.

All freedom has a price and yet it is that exact price that allow us to value it; the freedom of allowing ourselves to be our own essence, unique, beautiful, sometimes with a bit of madness, other times not understood, but always felt, lived with passion, with some tears along the way, but above all…with Soul, washed away by the waves of a deep blue sea.

Helena D’Almeida – June 19, 2016

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