logo

Monthly Archives: July 2016

07 Jul 2016

Montanha Magica – Thomas Mann

Há livros inesquecíveis Por detrás do enredo, sob as palavras que constroem a história, há uma determinada sensação que perdura em nós, muitos anos após termos lido o livro. Podemos esquecer quase tudo sobre ele, o que acontece ou o nome das personagens, mas não podemos esquecer a sensação que vivemos ao lê-lo.

Li a Montanha Mágica quando estava no ensino secundário. Era um final de outono acizentado e uma das alturas mais felizes da minha vida. Chegava a casa depois da escola e sentava-me na minha confortável cadeira laranja com uma chávena de chá quente nas mãos. Quando o chá arrefecia, levantava-me e voltava a aquecê-lo. Isto acontecia muitas vezes visto que ficava tão envolvida na minha leitura que me esquecia de o beber. Aquecia-o vezes sem conta porque lia horas a fio, semanas sem parar. Até perder a noção do tempo, tal e qual como a personagem principal que se vê preso num mundo onde o tempo já não faz sentido.

Se pudesse usar apenas uma palavra para descrever a Montanha Mágica seria intemporalidade.  O livro torna-nos num observador da vida interior de um certo Hans Castorp, um indivíduo comum, sem uma personalidade particularmente interessante, sem grandes paixões, engenheiro de profissão, avesso à aventura.  Este vai visitar o seu primo a um luxuoso sanatório numa montanha, para pessoas com tuberculose, onde acaba por se tornar também paciente. Nada acontece neste sítio e, porém, tudo acontece. Como nas nossas vidas, por vezes.

As personagens no livro estão num lugar onde a rotina é a verdadeira fibra da vida. Tudo é previsível. Tudo acontece da mesma forma, todos os dias, com uma rotina de pequeno-almoço, lanche a meio da manhã, almoço, chá a meio da tarde e jantar. As personagens estão quase sempre a comer e as refeições tornam-se a oportunidade para interações sociais complexas, para conversas profundas e para o revelar de neuroses. Um mosaico de psicopatologia mas também de bondade e empatia, de amor e muitas outras vulnerabilidades humanas.

Como leitores, podemos acreditar que estaríamos a presenciar as vidas de pessoas perpétuamente de férias nos Alpes, satisfazendo o seu gigantesco apetite num banquete contínuo, se não fosse pelo termómetro.  O termómetro torna-se o seu fetiche improvável.  Ao medirem continuamente a sua temperatura, as personagens lembram-nos que a acção está a decorrer num sanatório, onde a doença é uma parte essencial da noção que eles têm de si mesmos.  A gravidade da doença indicava o nível de seriedade de cada um e a sua vocação como paciente. Mais doente – mais respeito, estatuto social mais elevado.  Neste mundo, ansiedades profundas são reguladas por dois mecanismos: rotina e tempo.  

Ao pintar uma das mais complexas representações do tempo na literatura, Thomas Mann constrói uma atmosfera onde as suas personagens vivem uma alienação temporal aguda: um dia parece demorar um ano a passar, um ano parece passar tão rápido como uma semana.  As estações mudam invariavelmente e as pessoas fazem as mesmas coisas todos os dias, pela mesma ordem, construindo o ritmo hipnótico de um mundo suspenso no tempo.  

Para preservar esta sensação de intemporalidade no livro, decidi não o terminar.  Deixei as últimas páginas por ler.  Abdiquei da curiosidade normal de querer saber como acaba.  Para mim não era importante saber como acaba.  Era importante o como não acaba.  Foi a profundidade que este livro me fez viver, o mergulho na psique humana que me fez perceber o quão complexos, fracos e extraordinariamente bonitos somos. Esta é a profundidade semelhante à magia que faz da grande literatura, grande, e alguns livros inesquecíveis.  A Montanha Mágica é, para mim, um deles.

———-

There are books that are unforgettable. Behind the plot, underneath the words that build the story, it’s a certain feeling that lingers on in you, many years after you’ve read the book. You can forget almost everything about it, what happens or the names of the characters, but you can’t forget the feeling you experienced while reading it.

I read the Magic Mountain when I was in high-school. It was a grey end of autumn and one of the happiest times of my life. I would come home from school and sit in my cozy orange chair, always with a cup of hot tea in my hands. When the tea would get cold, I would get up and re-heat it. This would happen often as I would get so caught up in my reading, that I would forget to drink. I would reheat it again and again, as I would read for hours in a row, for weeks on end. Until I would forget the sense of time, just like the main character who finds himself trapped in a world where time doesn’t make any sense anymore.

If I could use just one word to describe The Magic Mountain, timelessness would be it. The book makes you into an observer of the inner life of a certain Hans Castorp, ordinary individual, with a no particularly fascinating personality, no grand passions, engineer by profession, aversive to adventure. He goes to visit his cousin in a luxuriously mountain sanatorium for people suffering of tuberculosis and ends up a patient himself. Nothing happens in this place and yet, everything happens. Just like in our lives, sometimes.

Characters in the book are in a place where routine is the very fibre of life. Everything is predictable. Everything happens in the same way, every day, a routine consisting of breakfast, mid-morning snack, lunch, mid-afternoon tea and dinner. Characters are eating almost all the time and meals become the opportunity for complex social interactions, for deep discussions and the unfolding of neuroses. A mosaic of psychopathology but also of kindness and empathy, of love and various other human vulnerabilities.

As readers, we could believe we were witnessing the lives of people on a perpetual vacation high in the Alps satisfying their gargantuan appetite through an uninterrupted feast, if it wasn’t for the thermometer. The thermometer becomes their unlikely fetish. Characters taking their temperature continuously remind us that the action is taking place in a sanatorium, where illness is an essential part of people’s sense of self. The gravity of illness indicated one’s level of seriousness and his vocation as a patient. More illness – more respect, higher social status. In this world, deep anxieties are regulated by two mechanisms: routine and time.

Painting one of the most complex representations of time in literature, Thomas Mann builds an atmosphere where his characters experience an acute time alienation: one day seems to pass like a year, a year seems to pass as quickly as a week. Seasons are changing invariably and people are doing the same things every day, in the same order, building the hypnotic rhythm of a world suspended in time.

To preserve this sense of timelessness in the book I decided not to finish it. I left the last few pages unread. I relinquished the normal curiosity of wanting to know how it ends. For me, it was not important to know how it ends. It was important how it doesn’t end. It was the depth this book made me experience, the plunge in the human psyche that made me realise how complex and weak and extraordinarily beautiful we all are. This is the depth akin to magic that makes great literature great and some books unforgettable. The Magic Mountain is, for me, one of them.

Paula Pascu – July 4, 2016

07 Jul 2016
07 Jul 2016

Paula Pascu – Montanha Mágica / Thomas Mann