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20 Sep 2016

A Sibila – Augustina Bessa Luis

A Leitura sempre foi uma segunda pele, que marcou a minha infância e juventude e ditou a minha escolha profissional. Escrevo este texto no meu local de trabalho que é exatamente uma Biblioteca. Sempre me rodeei de livros, são o meu habitat natural. Gosto de folheá-los, de organizá-los, partilhá-los, conversar em torno deles.

A escolha do livro para o projeto não foi imediata. Gosto quando a Literatura capta a vida nos seus traços mais estruturantes e reconstrói o fio que a conduz entre personagens, peças em ação no espaço e tempo que habitam. A memória devolveu-me alguns títulos, mas A Sibila “chamou-me” para um novo encontro. Li-o há muitos anos na escola, e a figura da protagonista inaugurou uma galeria de personagens femininas fortes, marcantes, clarividentes, sibilas, portanto. Sinto-me atraída pela energia feminina, pela perspetiva que muda o ritmo e a pulsação da narrativa. As histórias marcadas pela perspetiva feminina são mais intuitivas, mais ligadas a uma matriz essencial que me toca profundamente. Despertam as minhas filiações pagãs, devolvem-me a vivência da deusa –mãe, Gaia, Cale, ou outros nomes que assumiu, e renovam os meus laços com essa herança telúrica.

A Sibila é um romance de Agustina Bessa-Luís, publicado em 1954 e remete para as figuras clássicas das sibilas, como a de Delfos, a mais célebre de todas. O universo de Agustina regressa às suas origens familiares de Entre Douro e Minho, herdeiro de um saber natural, matriz da relação do Homem com a terra, com o tempo e com a espiritualidade. Quina, a Sibila da Casa da Vessada, constrói a sua ascendência paciente e laboriosamente, entre familiares, vizinhos, pretendentes e relações que estabelece por interesse de senhora da terra. Liberta dos grilhões sociais que a sua condição de mulher lhe impusera, Quina reinventa o seu papel como mulher, cujo perfil transcende a educação feminina. É uma mulher do seu tempo, que cumpre com energia e zelo os seus afazeres, mas é, simultaneamente, uma mulher sem tempo, um ser humano que rompe estereótipos e surge como guardiã da sabedoria ancestral, que religa (étimo de religião) o Ser à sua Essência.

Escolhi ou fui escolhida? Sigo a intuição. Esta é a minha matriz mais inteira que a literatura ajuda a descodificar. A Sibila está em todas nós.

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Reading has always been like second skin and defined both my childhood and youth and my future career. As I write this, I look around and there are thousands of books waiting to be read and opened up. I teach literature and I’m also a librarian. Books are my natural habitat. I love to read and talk about a book, that’s why I couldn’t pick only one.

I love when literature mimes life by picturing characters in their context, like actors in a play.I remember some good readings from the past, yet A Sibila (The Sybil) asked me on a second date.

I read it many years ago. Quina, the leading character, was the first name in a list of strong female characters with divinatory powers, real sybils.

I feel attracted to the energy that comes out from this feminine literary perspective which awakens the pagan in me, the goddess I believe was the primitive Mother Nature, Gaia or Cale, one of her many names.

The book written in 1954 by Agustina Bessa Luís shows Quina as a rural landlady, defying social conventions by overcoming her female role and leading everyone near her, family, neighbours, admirers and financial partners. She is, nevertheless, a timeless woman, an ancient wisdom keeper, who bonds each one of us with her essence.

Did I pick the book or was I picked? I followed my intuition. This is my portrait of a woman disclosed by this book. The Sybil lays in each one of us.

Cristina Basílio – 15 de Setembro de 2016

20 Sep 2016
20 Sep 2016

Cristina Basílio – A Sibila / Augustina Bessa Luis