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Monthly Archives: October 2016

17 Oct 2016

Combateremos a Sombra – Lidia Jorge

Bendita a hora em que ao convidar-me para participar como “BookLovingGirl” o Mário escreveu a frase lapidar: «Aquele que te modificou como pessoa.» depois de «Primeiro tens de escolher o livro da tua vida». Se ele só tivesse escrito esta última parte, estava o caldo entornado. Seria incapaz, como a maioria, de me decidir prontamente por um deles

(O amante, O estrangeiro, As ondas, A grande viagem da fada Miranda, Servidão humana, O perfume, Perto do coração selvagem, … Alguém me pare, por favor.)

e ele continuaria a aguardar pelo título, enquanto eu cumpriria uma longa penitência ante os preteridos, a qual envolveria horas de recriminação interior e choradeira. Resolveu-se o imbróglio. Obrigada, Mário, por isso e pelo convite para falar do «Combateremos a sombra» que mudou de modo indelével a minha vida de escrita e de leitora. Os seus efeitos ainda se fazem sentir, nove anos volvidos desde a primeira vez em que o li. Ofereceram-no à minha mãe que mo emprestou. Revelação arrebatadora.

Osvaldo Campos ficou comigo, até hoje. Não há viagem de comboio de Carcavelos para Lisboa em que não me recorde dele, na aproximação a Alcântara-mar. Como se não me morresse a esperança de um dia poder encontrá-lo, ou tão-só vê-lo, numa das suas corridas paralelas à marginal. Massacrado com as questões que os seus pacientes peculiares lhe plantaram intimamente.

Da narrativa recordo de imediato uma palavra: coragem. Talvez não seja referida ao longo daquelas páginas, mas à data foi o que mais me impressionou. O alerta implícito de como qualquer pessoa, acaso o deseje, poderá fazer o seu papel não obstante sentir-se pequena ou impotente, na luta contra os Golias da História. Bravas personagens, autora maior. Denúncia, acção, liberdade, numa voz literária inconfundível.

Osvaldo Campos, psicanalista devoto, parece ser em privado um homem acomodado e amorfo. Como todas as personagens densas, nas quais vamos adivinhando camadas, trata-se, igualmente, de um homem combativamente altruísta. Perdoa o valor das consultas aos miserabili que ultrapassam em número e dificuldade os que lhe permitem a subsistência, pagantibus. Inesquecíveis: Lázaro Catembe, o jardineiro que não consegue ver as pessoas da sua cor; o jornalista Elísio Passos, paranóico aterrado com a distribuição de ovos envenenados com capacidade para influenciar o pensamento das pessoas e a «paciente magnífica», Maria London. É com ela que se desenrolam as passagens mais empolgantes. Aparentemente, uma jovem narcisista imersa em bens materiais que à falta de problemas autênticos se terá afundado num estado psicótico no qual inventa conspirações em paquetes de luxo e crimes relacionados com obras de arte, envolvendo o próprio pai. O psicanalista persistirá no seu acompanhamento, apesar de se afigurar dificílima a recuperação. Pressentimos as verdades escondidas nos delírios da bela mulher. Osvaldo jamais desiste dos seus casos, mesmo que para tal se prejudique. Admirei-o na falência. À distância, pensando na trama, relembro haver esperança dentro das tragédias humanas que a perpassam. Muita, apesar de tudo. Encanta-me, por exemplo, que Osvaldo tenha encontrado Rossiana e que esse encontro tenha ocorrido em reciprocidade. Pelo seu modo de ser e de agir, Osvaldo respondeu-me à questão do ensaio que se propôs terminar na noite de fim do Milénio: «Quanto pesa uma alma?»

Lídia Jorge (Boliqueime, 1947) recebeu em 2008 o prémio Charles Bisset por esta publicação de 2007. Alegrei-me com ela e pela obra que me são tão queridas.

Perdoem a prosa já ir longa, todavia, feita a viagem dentro do volume, esperava-me fora cadeia de acontecimentos que me habitará enquanto viver e que é o que torna este livro ímpar, relativamente às minhas leituras passadas e futuras, a qual resumo o mais possível.

Em Dezembro de 2007, a Bertrand realizou um passatempo que dava acesso a um jantar com o autor favorito. Enviava-se uma mensagem escrita com o número da factura e o escritor de eleição. De uma lista interessante foi-me muito fácil optar por dois nomes. Enviei uma sms para jantar com a Inês Pedrosa, outra com a Lídia Jorge. Quando recebi a boa nova de me ter calhado em sorte a Lídia, dei pulos de alegria. Literalmente. No local de trabalho. E, claro está, choraminguei de contentamento. Andava na senda de publicar uma coisa que tinha escrito e o ego me assegurava ser uma maravilha. Na noite do jantar, 28 de Fevereiro de 2008, esta que escreve, ingénua e ignorante, meteu na mala, além do «Combateremos a sombra» da mãe para a dedicatória, um exemplar “daquilo” e seguiu para o Hotel Pestana Palace na Ajuda com o coração a bater, alguma falta de ar, os pés frios e os intestinos a vacilarem.

Foi uma noite memorável de partilhas, riso, comoção e a intimidade possível entre pessoas que haviam acabado de se conhecer, mas que estavam a apreciar a companhia. Guardei duas amizades que mesmo à distância acompanho, a Sandra e a Di e, porque aconteceu, aprendi que aquele momento não era um destino, apenas o início de uma longa jornada.

Sustive a respiração antes que a oportunidade me fugisse com as despedidas e entreguei o envelope A4, pedindo-lhe que me perdoasse se a minha escrita a agredisse. A Lídia foi de uma ternura desmedida ao receber-mo das mãos e, meses depois na feira do livro, quando a procurei temente para perguntar se me tinha lido, não foi menor o seu cuidado ou a sua consideração por uma pessoa que sonhava. Disse-me o que eu precisava de ouvir. Não me demoliu e não foi condescendente. Ouvi-a: Marguerite Duras, Virginia Woolf, Anaïs Nin. São agora referências incontornáveis, para mim. Li-lhe no olhar: «Não.»

Constatei: «Ainda não.»

Nem por um instante coloquei em causa que continuaria a escrever. Tinha de aprender mais. Tinha, claramente, de ler melhor. Havia que procurar ouvir os que andavam há mais tempo do que eu a caminhar.

Assim fiz. Inscrevi-me em cursos de escrita criativa. Conheci pessoas apaixonantes e generosas no ensinar. Nuno, Luís FB, Filipe, Raquel. Ganhei uma boa amiga para a vida, a Vanessa. Ouvi referências a Livrarias com gente dentro, gente que ama a literatura e faz dos livros ar e alimento. Conheci a Trama. Quanta saudade. A Catarina. O Ricardo (Sr-Teste) que é o meu livreiro, em Lisboa, desde então (2009). Na Trama cheguei à Rosa que me ensinou sobre Literatura Portuguesa, Latino-americana, sobre Surrealismo. Ao Luís G. conheci no «Para acabar de vez com a leitura», também organizado por ela. Ao Encontro Livreiro da Fátima e do Manuel, na sua Culsete (Fechada neste ano triste.), cheguei pela divulgação de ambos. Naquele encontro das gentes do livro, ouvi um texto sobre o estado da arte das Livrarias, com o título «A Tourada», pela boca do autor Joaquim (Livreiro de Sines) a quem não mais deixei de escutar e a quem sigo os conselhos, sempre que posso, comprando-lhe os títulos inadiáveis.

Fui percebendo que mais importante do que ouvir pessoas dando dicas sobre escrita, seria saber ler bem. Assegurar-me que não perderia mais tempo, do tempo que me resta, com livros que não me acrescentassem. Nessa demanda deparei-me com os cursos ÍCONE na ECON do Luís. Sessões intimistas em que um grupo limitado de pessoas pode ouvir escritores maiores falarem sobre as suas influências, experiências, autores de eleição e o que mais venha à baila no diálogo que se estabelece. Tem sido enriquecedor. Na ECON tenho cimentado amizades. Sinto saudades quando demora o reencontro. Anoto referências de inúmeras leituras em falta. Li o Gnaisse, exemplo de um belíssimo livro, pelo afecto ao escritor que o lançou na frente de tantas entradas da minha lista “a ler”. Foi precisamente na ECON que conheci o João que há uns dias comentou um post que fiz sobre o “BookLovingGirl” e me pôs a falar com o Mário. Aqui vim parar, escrevendo mais do que devia. (Alguém desse lado, ainda?)

Vivi este tanto porque o «Combateremos a sombra» se cruzou comigo. Eis o poder de um único Livro. Imagine-se o da Literatura. É uma das armas com que me muno para combater, à minha escala pequena, o obscurantismo.

Serei grata até ao último fôlego à Lídia Jorge pelos seus livros, este em particular, pela sua generosidade, por ter sido farol.

Obrigada, Mário Pires, por me fazeres reviver estas páginas da minha história, num espaço belo como é este teu.

«Deveríamos rir-nos da fragilidade da memória, ou pelo menos sorrirmos das artimanhas do seu esquecimento. Na verdade, decorridos três anos depois da passagem do Milénio, se nos perguntarem o que sucedeu durante essa noite que então tomámos por memorável, pouco mais do que a figura sideral de um fogo-de-artifício em forma de chuva de estrelas a cair sobre o estuário de um rio nos virá à mente. E no entanto, a vida não se passou bem assim

Andreia Azevedo Moreira – 13 de Outubro de 2016

17 Oct 2016
17 Oct 2016

Andreia Moreira – Lídia Jorge / Combateremos a Sombra

10 Oct 2016

“The Hours” –  Michael Cunningham

There is a beauty in the world, though it’s harsher than we expect it to be.
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Entre os livros que me fascinaram, deixaram uma marca indelével ou traduziram algum tipo de evolução interior tornou-se um verdadeiro desafio explicar porque razão surgiu "The Hours” de Michael Cunninham no meu espírito quando interrogada pelo Mário Pires acerca de uma obra da minha predileção para este magnífico projecto que são as “Book Loving Girls”.
É simples: Recuso-me a admitir ter feito algum tipo de seleção.
E passo a explicar: Foi o livro que dentro de mim vivia, aparentemente adormecido depois de tantos anos, que ousou responder em meu lugar (antes que eu pudesse sequer intervir). A sério.
É uma excelente obra, aprecio imenso tudo de Cunningham, mas não será decerto o melhor livro que já li na minha vida. Aquilo que me une a “The Hours” talvez tenha mais ver com algum tipo de fixação (de ordem passional) bastante mal resolvida – e, no entanto, continuada fonte de consubstanciação.
Fui procurar a minha velha edição paperback (em versão original, bastante maltratada, provavelmente comprada em algum aeroporto) e retomei nova leitura integral, regressando a mim própria tal como eu era há 17 anos atrás – e há 15, há 12, há 9 anos atrás – porque os livros que eu amo, pelos quais cultivo obsessões, crescem comigo durante um tempo, são lidos repetidamente, por vezes anos a fio – esses livros vão comigo a muitos lugares. Neste, entre as páginas amareladas, com cantos dobrados, encontram-se bilhetes de metro parisiense, nódoas de chá e por vezes coisas indecifráveis escrevinhadas nas margens em momentos de maior emoção.
“The Hours” é uma daquelas obras que funciona como cápsula do tempo de mim mesma – e, sim (porque não admiti-lo?), caixa de Pandora.
Relendo, vejo-me com várias idades diferentes – desde aquela em que tudo é uma possibilidade até outras horas e lugares que não pareciam oferecer uma porta de saída.
Diz Laura Brown : “What does it mean to regret when you have no choice”.
Verifico, mergulhando de novo nesta narrativa não-linear, feita de épocas, personagens, fluxos de consciência e monólogos interiores paralelos que esta ainda me comove e afecta profundamente. Produz-se uma estranha identificação com cada uma das três personagens femininas principais: Virginia Woolf (baseada na escritora), Laura Brown e Clarissa Vaughan – e, adicionalmente, Richard Brown.
Declara Richard a certo ponto : “We want everything, don’t we?”.
Tenho uma certeza: A maior felicidade que este livro trouxe foi (tal como as matrioshkas) conter outro livro dentro. E outro, e outro, e outro.
“The Hours”  mostrou-me o caminho para Virginia Woolf e “Mrs. Dalloway” – bem como “To The Lighthouse”, “Orlando”, diários, biografias várias e Vita Sackville-West – a partir dos quais Cunningham soube traçar paralelismos intencionais e assumidos, sempre hábeis e elegantes.
You cannot find peace by avoiding Life, Leonard”. A realidade confunde-se com a ficção nesta frase que Michael Cunningham ousa pôr na boca de uma Virgínia Woolf que não podemos dissociar da verdadeira, de tão real, amando profundamente a vida até decidir pôr-lhe um ponto final. Maravilhosa Virginia.
Assim vivo esta história peculiar da qual ainda não logrei libertar-me. Sem paz alguma – mas muito, muito viva.
Ignoro quantas vezes mais voltarei a ler este livro: É possível que venha a fazê-lo até compreender a ressonância essencial que provoca em mim. E até poder articulá-la. Com sorte, virei a identificar esse lugar ou momento impreciso e fugidio e então direi, como Clarissa Vaughan: “(…) there was such a sense of possibility. You know, that feeling? And I remember thinking to myself this is the beginning of happiness. This is where it starts. And of course there will always be more.

Yara Letartre – 9 de Outubro de 2016

10 Oct 2016
10 Oct 2016

Yara Letartre – The hours / Michael Cunningham