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28 Nov 2016

A Historia Interminavel – Michael Ende

É muito provável que tenha terminado de ler o livro da minha vida. Contudo, sempre me foi extremamente difícil escolher um livro favorito, sei dizer apenas que todos os livros que amei e me ficaram na pele me caíram no colo como se me escolhessem. E este não foi excepção.

Há uns dias atrás – a propósito deste projecto -, percorria as minhas estantes com os dedos e relembrava as muitas histórias que vivi e revivi ao lado de personagens que nunca esquecerei. Relembrava também outras tantas que comprei e nas quais ainda não me aventurei (quem não tem uma pilha de livros – em constante equilíbrio – à espera por serem lidos que atire a primeira pedra). Talvez tenha sido uma escolha induzida, mas a verdade é que há muitos anos que não pegava naquele livro, li-o com 18 anos e foi-me oferecido por uma vizinha com quem nunca mais tive contacto (há encontros assim, finda a razão, finda a relação).
Tirei-o da prateleira e foi com alguma estranheza que o folheei, não me lembrava da história, mas sentia que tinha gostado muito daquele livro, e há paixões assim, não é? Decidi-me, então, a relê-lo.

Nunca sentiram que há livros que têm momentos certos para serem lidos? Para entrarem na nossa vida? E quando finalmente os lemos é como se tudo conspirasse em volta para aquele encontro, como se o mundo entrasse todo em sintonia! Nem todos seremos assim, com certeza, tive uma cliente na livraria que só conseguia ler livros que começavam em ambientes chuvosos ou de muito frio, se estivéssemos no Inverno, há certos rituais que só dizem respeito ao leitor e ao livro, é uma relação especial, e é sem dúvida uma relação de amor (e das que são para sempre).

Com este livro senti isto mesmo, e senti, de certa forma, que ele me tinha dado uma segunda oportunidade. Quem leu o livro – “A Fera na Selva”, do Henry James – saberá que nem sempre olhamos para o que se nos coloca em frente como quem vê. Tive sorte ou tive olho, mas certamente cheguei mais cedo que Marcher a este amor. Estava escolhido o livro da minha vida, pelo menos por enquanto, – pensei.

Dias depois deste meu encontro com Marcher e May, um amigo, muito querido, trouxe-me um livro da sua infância. Toda a gente sabe que os livros que nos marcam na infância são os mais especiais de todos, pelo que percebi que  poderia estar com um tesouro em mãos. As páginas amarelecidas do tempo, a capa enrugada e a as páginas descoladas da lombada dissiparam as dúvidas: era mesmo um tesouro. Na capa lia-se: “Michael Ende A História Interminável”.

Foi de um fôlego, desde o momento em que Bastian entrou a correr, ofegante e ensopado na livraria do senhor Koreander, que me tornei sua cúmplice. Com ele, sentados em colchões velhos e de mantas empoeiradas a servir de agasalho, vi Atréiu e Fuchur completar a Grande Busca e com ele entrei também naquela História Interminável.

Quando cheguei ao fim não pude conter as lágrimas, se é um livro de miúdos também o é de graúdos, e se tem muito de fantasia também tocou em muitos assuntos sérios. Tal como Bastian, também nos cabe a nós “filhos de Humanos” não deixar que Fantasia desapareça e, consequentemente, que o nosso “mundo” não se torne mais negro, desprovido de sonhos e histórias de encantar.

“ – Todas as verdadeiras histórias são uma História Interminável! – Passou os olhos pelos muitos livros empilhados até ao tecto nas estantes que tapavam as paredes e depois disse, apontando para eles com a boquilha do seu cachimbo:
– Há muitas portas para Fantasia, meu rapaz. Há muitos outros livros mágicos. Muitas pessoas nunca dão por isso. Tudo depende da pessoa em cujas mãos cai o livro.
– Então a História Interminável é diferente para cada um?
– É isso mesmo – disse o senhor Koreander. – Além disso, não são só os livros que levam a Fantasia, há outras possibilidades de ir até lá e voltar. Hás-de vir a sabê-lo mais tarde.”

Obviamente que ao terminá-lo, e enquanto ainda o tomava nos braços, atordoada, dizia para comigo que era este, este é que era o livro da minha vida. o livro de todas as histórias e das histórias que são intermináveis. Toda a gente sabe que Fantasia não tem fronteiras.

Inês Espada Nobre – 24 de Novembro de 2016

28 Nov 2016
28 Nov 2016

Inês Espada Nobre – Michael Ende / A História Interminável