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Monthly Archives: December 2016

27 Dec 2016

Ana Teresa Pereira – A ultima historia

Talvez por ser tímida, a leitura ocupou grande espaço na minha adolescência. Gastava na papelaria do meu bairro, que fazia as vezes de livraria, toda a minha mesada.  Mas, na verdade, foi o Círculo de Leitores que me trouxe a casa, sem eu mexer uma palha, a Ana Teresa Pereira, uma autora que me prendeu para sempre. Era um livro chamado “A noite mais escura da alma”.

Depois desse li quase todos os que publicara, incluindo este que seguro nas mãos: “A última história” numa edição da Caminho de 1991. As nossas vidas são feitas disso mesmo: histórias, vivências… sem que saibamos qual será a última ou até quem a escreveu. Neste livro há um momento em que uma das personagens pergunta a outra: “Eras tu que escrevias os meus livros?” Como se houvesse a fusão/confusão daquelas pessoas (algo muito recorrente nas narrativas da autora). De alguma forma a escrita de Ana Teresa Pereira influenciou a minha. O seu imaginário toca o meu. As histórias que escreve têm sempre um mistério sedutor. As personagens são ferozes e frágeis ao mesmo tempo. A vítima, muitas vezes, está viciada nessa sua condição. Aceita morrer às mãos do amor. A loucura, ou a sua iminente possibilidade, ocupa um espaço inevitável. A beleza confunde-se com a natureza. A fealdade contém partes dessa beleza. E o amor mostra as suas diferentes caras. A solidão revela do que é capaz. A tentação é verdadeira. As cores mergulham nelas as histórias. O passado aparece nos detalhes, nas joias simples, nos lugares, nas frutas e nas rotinas. E tudo isso me fascina.

É uma prosa poética; cheia de elementos, sentimentos, atmosferas, recorrentes, como se a história nunca acabasse de ser contada, livro após livro. A autora dá-nos as suas referências literárias e artísticas, envia-nos sugestões, que vão de Paul Klee a Rothko, e na literatura: Yeats, Poe, Christian Andersen ou Iris Murdoch. Ana Teresa Pereira é uma mestre na literatura de mistério e suspense e é uma grande referência para mim.

Mónia Camacho – 26 de Dezembro de 2016

27 Dec 2016

Biografia

Biografia

27 Dec 2016

Mónia Camacho – Ana Teresa Pereira / A última história

19 Dec 2016

Enki Bilal – A Mulher Armadilha

Li «A Mulher Armadilha» de Enki Bilal sem ter lido primeiro «A feira dos Imortais», o livro que o antecede. De qualquer forma isto não foi importante porque fiquei completamente siderada com a história, a trama e as personagens mesmo sem perceber muito bem o contexto e de onde elas vinham. Aliás, tive que ler várias vezes «A Mulher Armadilha», ao longo dos anos, para conseguir apreender as suas subtilezas e particularidades tão fora do comum.

Comprei este livro em 1997, já trabalhava como jornalista e estava a terminar a licenciatura em jornalismo. Jill Bioskop, a personagem principal, é uma jornalista que vive em 2025 mas publica as suas reportagens no passado, na década de 1990. A possibilidade de poder-se transitar do futuro para o passado, e vice-versa, foi das coisas que mais me fascinou porque já na altura eu acreditava nesta realidade quântica. Jill é uma figura de poder misteriosa, verte sangue e lágrimas azuis, e vive numa Londres que parece ser uma cidade sitiada onde pouquíssimas pessoas conseguem viajar para fora sem autorização do rei. Ela está a cobrir um conflito entre as minorias afro-paquistanesas e zubenubianas, e depois consegue fugir para Berlim onde acaba por investigar outro conflito onde uma das fações são os islamcristãos.

Lembro-me de, na altura, pensar na eventualidade de estes grupos poderem existir no futuro, e no que esta mistura entre credos e culturas significava em termos de evolução do ser humano. A Europa era um lugar muito diferente do de hoje. Tanto Londres como Berlim eram espaços de aspeto urbano industrial decadente com populações compostas por indivíduos que tanto revelam serem humanos como máquinas ou animais, ou tudo isto junto. Uma misturada inacreditável que, no entanto, me pareceu bastante plausível. Quem me conhece sabe como as culturas, suas manifestações e miscigenações me fascinam, e esta história abria-me portas à imaginação e à projeção de um futuro próximo menos conservador, preconceituoso e cientificamente fechado daquele que eu vivia em 1997 quando comprei o livro.

Através de várias personagens e pormenores do enredo este livro veio confirmar-me uma série de interesses, crenças e projeções minhas como sendo realidades deste mundo ou de outros mundos. Sem querer alongar-me nem contar o enredo a quem nunca leu o livro, resta-me dizer que entre os imensos pormenores de interesse também destaco o gato que serve de canal telepático de comunicação e ainda o deus Hórus como figura gravitacional. E tudo isto me fez sentido, entre passados e futuros, mundos e extra-mundos, pessoas-máquina e animais poderosos. Ainda hoje leio a história e fico fascinada com a capacidade que tem de prender-me e fazer-me parar para pensar. Marcou-me imenso.

Carla Isidoro – 13 de Dezembro de 2016

19 Dec 2016
19 Dec 2016

Carla Isidoro – Enki Bilal / A mulher armadilha