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O Grande Gatsby – Scott Fitzgerald

Tinha 17 anos e uma ânsia de mundo que a visão do Tejo, da janela de casa, atiçava. Sonhava com aviões e comboios nocturnos, mas, nesses tempos pré-Erasmus, só os livros e os filmes acalmavam tal desejo. Na disciplina de Inglês, no 12º ano, exigia-se então a leitura integral do romance de Francis Scott Fitzgerald, The Great Gatsby. “Uma seca”, garantia quem por lá passara anteriormente. “Um clássico da literatura norte-americana”, advertia a professora que, percebia-se rapidamente, não morria de amores por essa história de sonhos perdidos na América da Lei Seca.

Creio que me apaixonei logo pela musicalidade das palavras, mesmo que tivesse de ler com Dicionário Inglês-Português ao lado. Durante anos, soube de cor as primeiras linhas: “In my younger and more vulnerable years my father gave me some advice that I’ve been turning over to my mind ever since.” Depois, havia o ambiente e o cenário: os loucos anos 20, as raparigas de cabelo à garçonne e vestidos de franjinhas que acompanhavam o ritmo frenético dos pés a dançar o “fox trot”. Amantes sonhadores em tardes em que só se movia a gaze das cortinas nas janelas. Um pontão, no horizonte, de que se divisava a luz verde de um pequeno farol. Pego no exemplar, velho de 30 anos, que usei nesse distante ano lectivo de 1985-86, editado pela Charles Scribner’s Sons, de Nova Iorque, e ainda lhe encontro as anotações que fiz a lápis – e em Inglês para me facilitar o estudo. Referem-se quase sempre aos caracteres das personagens (a inconsistência intelectual e moral do casal Buchanan, o desespero dos Wilson, a nova mulher independente e desportista personificada por Jordan Baker), mas rapidamente compreendo, e recordo, que o meu coração adolescente balançava entre Nick, o narrador, e o protagonista, Jay Gatsby. Creio que voltaria a balançar, talvez porque, no coração e no sistema de valores, continuo a ter exactamente os mesmos 17 anos.

Francis Scott Fitzgerald, que escreveu esta obra, hoje canónica, com menos de 30 anos, teve uma vida breve e atormentada porque ao sucesso precoce não correspondeu continuidade igualmente brilhante. Diz-se que, por causa de Zelda, a sua disfuncional amada, ou porque a bebida e os prazeres da vida boémia o foram desviando dos rigores da escrita. O certo é que, sei-o hoje, criou o protótipo do herói americano que está para a Literatura, como Gary Cooper, Humphrey Bogart ou, mais recentemente Sam Shepard, estiveram para o Cinema. Um homem solitário, misterioso, nem sempre honesto nos negócios, mas leal nos sentimentos, que reinventa o mundo à sua imagem, movido por uma vontade indómita (título, aliás , de um filme justamente com Gary Cooper). Alguém a quem uma paixão contrariada na juventude servira de motor para procurar a suprema riqueza, o luxo à Citizen Kane, novas “raízes”, na tentativa de reconquistar o amor da sua vida, sem cuidar de saber se este estaria à altura da expectativa. Advertem-no de que não pode repetir o passado. Sentindo-se omnipotente na sua determinação, parece nem perceber a justeza da questão. “Of course I can”, responde, sem que o assalte a mais ténue dúvida. O que ele não podia saber, na sua cegueira, é que idealizara a amada Daisy, a ponto de não perceber que ela há muito que hipotecara qualquer sonho de amor a uma vida de dourada vacuidade.

O que me impressiona hoje é como esta história de amor e frustração tocou tanto uma miúda de 17 anos, que mal começara a viver, mas que, graças a tal paixão literária, conseguiu a melhor nota nacional do exame de Inglês desse ano lectivo. Seria o romantismo do protagonista, a sua necessidade de reinventar o mundo e a si mesmo, como eu própria, insatisfeita com o meu destino periférico (sim, Portugal era mesmo um sítio periférico em meados dos anos 80), sentia? A verdade é que esse fascínio perdura até hoje, sobrepôs-se a muitos outros amores literários e resistiu a várias adaptações cinematográficas (desde a de 1974, com Robert Redford e Mia Farrow, até à luxuriante, de Baz Luhrmann, em 3D, com Leonardo DiCaprio). Ao longo da vida, ofereci muitos exemplares de The Great Gatsby. Em Inglês, mas também em Português (numa boa tradução do escritor José Rodrigues Miguéis) e tenciono oferecer mais uns tantos. Em alguns casos procuro chamar a atenção para os cambiantes e matizes, tantos e tão belos, que se ocultam no que pode parecer uma banal história de amor e desamor. Para aquilo que torna The Great Gatsby uma obra que resiste à passagem do tempo, à mudança de hábitos e costumes, lado a lado com Guerra e Paz ou Dom Quixote. Como aquele final, deslumbrante, em que Fitzgerald estabelece o contraponto entre o optimismo inabalável do protagonista, simbolizado pela luz verde no pontão fronteiro à sua janela, e a força de um passado que não termina. Leiam devagar para lhe saborear as palavras: “So we beat on, boats against the current, borne back ceaselessy into the past.”

Maria João Martins, 21 de Setembro 2017

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