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O Templo Dourado – Yukio Mishima

A verdadeira beleza é algo que ataca, domina e finalmente, destrói.”
Yukio Mishima

No Japão, ninguém presta atenção às coisas e às pessoas. Aprecio esta cultura onde vagueiam muitas sombras. É fácil ser-se discreto, quase incorpóreo. Yukio Mishima viveu muito tempo desta maneira encoberta, mas através do acto libertador do seppuku, desvelou-se. Escrevo estas palavras no aniversário da sua morte (Tóquio, 25 de novembro de 1970).

Retorno sempre a este livro porque sinto muito do personagem Mizoguchi, o monge gago d’O Templo Dourado, de espírito coberto de uma noite antiga em que o olhar não consegue evitar a visão prazeirosa da beleza. Não gaguejo, mas não me sei expressar harmoniosamente, só as imagens que desenho e pinto talvez se possam aproximar devagarinho das coisas que penso e quero dizer.

O Templo Dourado é um livro sobre a insuportável qualidade do Belo e a liberdade que nos traz quando somos separados deste símbolo. Segundo o monge Zenkai, quando se é feio, é mais fácil viver, porque possuímos uma máscara que nos permite liberdade; deixam de importar os nossos actos – vamos todos morrer de qualquer forma.

Assim com Mizoguchi, fico exaltada com as faces agradáveis, os gestos elegantes e a beleza fresca que desabrocha dos crisântemos. Gosto dos majestosos Budas, Dakinis e Bodhisattvas dourados, que me guiam no tantra, que me coagem a alongar a meditação e a prolongar o tempo de preces. A possibilidade destas figuras quebrarem-se, ou serem mesmo destruídas, atribui-lhes ainda mais beleza. Encanta-me a sua beleza excessiva. mas por vezes entristece-me a separação da minha imagem com estas figuras sagradas, é quase cruel – o Belo pode ser amargoso. Compreendo a censura de um rosto belo, ao ignorar os actos dos outros, mas é doloroso este desapego de silêncio. O belo mais que belo provoca cegueira, é certo, e assim como a traça que voa à volta da lâmpada, embato com violência contra a barreira invisível que me separa de tudo isto, procurando activamente estar banhada nesta luz purificadora de beleza.

Refugio-me todos os anos n’O Templo Dourado com a forte vontade em percorrer o caminho do monge incendiário, que, com o desejo de liberdade, decide destruir o mais belo objecto do seu mundo, o templo.

O meu exemplar d’O Templo Dourado foi-me oferecido pelo meu pai. A capa perdeu muita da sua cor dourada, e ficou com dobras e cantos comidos pelo uso e pela constante companhia na minha mochila. As dobras e riscos que tem recordam-me das gravuras japonesas, e as páginas que eram negras perderam a intensidade, agora são foligem, assim como o templo. Talvez tudo isto seja exagero.

Terminei este livro, pela primeira vez, sentada num cadeirão, no meu quarto transbordado com a luz vermelha do pôr do Sol, e quando li Mizoguchi a contemplar a imagem espelhada no lago do templo em chamas, puxando do cigarro e escolhendo viver, também eu observei a luz da minha janela, repetindo as mesmas palavras. Compreendi como as coisas belas repousam num mundo que nos é indiferente, e que isso nao tem de ser entristecedor. Desde então olho os templos dourados que visito com um olhar mais sereno e tenho sempre comigo, no meu pequeno caderno de rabiscos, uma fotografia de Mishima.

O Templo Dourado (金閣寺 Kinkaku-ji), Yukio Mishima, 1956
Tradução de Filipe Jarro
Assírio e Alvim, 1985

Maria da Luz Rivara, 25 de novembro de 2017

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