Wrestling Composers

by retorta on 10/04/2007 · 3 comments

in Música

Após ter lido esta entrada do Pedro, fiquei a pensar na questão do “valor” da música e dos seus autores.

Podemos óbviamente gostar mais de um que do outro ou até nem fazer distinção no grau de gosto, mas dizer que quem escreveu isto:

Rostropovich plays Bach´s Bourree – Suite No 3

È melhor ou pior compositor do que quem escreveu isto:

Vivaldi concerto for 4 violins – 1. mov.

Parece-me pouco mais do que um exercício de retórica argumentativa (que tem mérito pela forma inteligente como propicia a discussão). Acredito que podemos distinguir autores em termos qualitativos, analisando a sua produção musical e comparando-a utilizando os recursos que a musicologia pôe à disposição dos estudiosos. Dessa forma podemos de certa forma “arrumar” os autores em “divisões” semelhantes ás utilizadas no desporto, mas dentro de cada “divisão” já acho muito mais subjectivo que se queira fazer um campeonato e atribuir classificações.

Sobre isto a opinião de Pedro é semelhante:

Será possível demonstrar que um compositor é ‘melhor’ que outro? O sucesso é talvez mensurável — por exemplo através do número de discos vendidos, de concertos, de livros escritos sobre, e mais recentemente, de toques de telemóvel, atendedores de chamadas e música ambiente (e aqui parece-me que neste momento Bach ganha claramente a Vivaldi, para desespero dos melómanos).

Agora, a ‘qualidade’ de uma obra de arte, quanto mim, não é de todo mensurável. Em qualquer arte, da música e da pintura até à culinária e à vinicultura. Por exemplo, Turner é melhor que Rothko? (sei que isto é batota, e neste momento estou quase a chorar a rir).

Um dos pontos do ensaio referido tem a ver com a influência dos factores exteriores á música para explicar o sucesso de alguns compositores, questão resumida neste parágrafo da entrada já referida:

A argumentação de Fernandez é de teor histórico-sociológico, e insiste no ponto de que Bach é mais prestigiado (principalmente por influência dos musicólogos, nomeadamente alemães, a partir do século XIX, e dos media depois disso) do que realmente amado pelo público, por comparação com Vivaldi, que ficou esquecido na gaveta até meados do século XX e é popular mas relativamente desprezado pelos intelectuais. Parece-me um ponto de vista muito pertinente e interessante.

Se quisermos excluir todos os factores exteriores à música, podemos fazer uma experiência como a levada a cabo pelo Washington Post.

Um dos melhores executantes actuais de violino (Joshua Bell), vestido de uma forma informal, colocou-se junto a uma das entradas de uma estação de metro de Nova York no meio da hora de ponta mantinal,e armado de um violino Stradivarius tocou durante 45 minutos uma selecção de 6 das peças mais consideradas da história da música (sempre uma lista com alguma subjectividade).
O objectivo para o Washington Post era “simples”: Será possivel reconhecer a beleza mesmo em circunstâncias adversas ?

“…but the fiddler standing against a bare wall outside the Metro in an indoor arcade at the top of the escalators was one of the finest classical musicians in the world, playing some of the most elegant music ever written on one of the most valuable violins ever made. His performance was arranged by The Washington Post as an experiment in context, perception and priorities — as well as an unblinking assessment of public taste: In a banal setting at an inconvenient time, would beauty transcend?”

Façe ao desfecho da experiência o Washington Post coloca a questão:

IF A GREAT MUSICIAN PLAYS GREAT MUSIC BUT NO ONE HEARS . . . WAS HE REALLY ANY GOOD?

It’s an old epistemological debate, older, actually, than the koan about the tree in the forest. Plato weighed in on it, and philosophers for two millennia afterward: What is beauty? Is it a measurable fact (Gottfried Leibniz), or merely an opinion (David Hume), or is it a little of each, colored by the immediate state of mind of the observer (Immanuel Kant)?

Mark Leithauser, curador da Washington National Gallery, avisa-nos para ter cautela e não ter demasiada pressa em catalogar as pessoas como ignorantes (unsophisticated boobs), já que o contexto em que os eventos se passam não é irrelevante:

“Let’s say I took one of our more abstract masterpieces, say an Ellsworth Kelly, and removed it from its frame, marched it down the 52 steps that people walk up to get to the National Gallery, past the giant columns, and brought it into a restaurant. It’s a $5 million painting. And it’s one of those restaurants where there are pieces of original art for sale, by some industrious kids from the Corcoran School, and I hang that Kelly on the wall with a price tag of $150. No one is going to notice it. An art curator might look up and say: ‘Hey, that looks a little like an Ellsworth Kelly. Please pass the salt.’”

Como citado no artigo, Kant considerava que a nossa capacidade de apreciar a beleza estava relacionada com a capacidade de fazer juízos de valor em relação a questões de ética, e que para isso acontecer as condições deviam ser as ideais, coisa dificil de acontecer numa hora de ponta.

Não viajo de metro tão frequentemente como o fazia, mas ao ser confrontado com um músico numa estação, o meu tempo disponível para parar e ouvir não seria um factor a desprezar, já que mesmo que me agradasse a música, os afazeres com hora marcada falariam provávelmente mais alto.

No artigo, são entrevistadas algumas das pessoas que foram participantes involuntários do evento, e evita-se a tendência tão nacional de catalogar as pessoas como ignorantes e incapazes de apreciar a verdadeira beleza.

Joshua Bell, que se prestou à experiência (um exemplo de humildade e vontade de se pôr à prova) deixa um comentário final bem humorado acerca dos $32.17 que amealhou:

“Actually, that’s not so bad, considering. That’s 40 bucks an hour. I could make an okay living doing this, and I wouldn’t have to pay an agent.”

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{ 3 comments… read them below or add one }

Pedro April 14, 2007 at 04:05

Fantástico! Desculpa não ter vindo aqui antes. Por isso não tinha percebido o comentário no meu blog, que estupidez.

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Pedro April 14, 2007 at 04:37

Vou ler a reportagem com mais atenção. Para já, achei interessantíssimo. Em vez de nos focarmos na música em abstracto, podemos foca-nos no modo como ela é produzida e escutada na realidade.

Se o violinista estivesse na rua, num local mais simpático, a reacção dos passantes devia ser diferente.

Nunca assisti a uma coisa como esta, mas já houve situações em concertos que me deixaram estupefacto, para o bem e para o mal.

Há uma coisa de que eu gosto muito na cultura americana, que é haver muito menos hierarquização entre ‘alta cultura’ e cultura popular. Não há, ou há menos, não sei bem (só conheço a América dos filmes, mas dizem que é igual), esta coisa dos ‘bimbos’ e dos ‘cultos’ como na Europa, e este artigo brinca um bocado com isso também.

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retorta April 14, 2007 at 11:17

E as condições são mesmo importantes, se não para que se fariam auditórios com acústica cuidada ?
Como resultado disto já comprei um disco com os solos de violino!

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