Ao ler a entrada sobre Gérard Castello-Lopes no blog Arte Photographica, reparei logo na passsagem onde José Manuel Rodrigues ao falar sobre Gérard Castello-Lopes diz: “passávamos horas e horas a discutir fotografia”.
Esta afirmação suscitou-me uma pergunta, porque não discutimos a fotografia com paixão e sem nos cansarmos ao fim de breves minutos?
Muitos possuidores de material fotográfico diverso passam muitas horas a discutir as qualidades e defeitos das suas ferramentas, não será isto discutir fotografia ?
Na minha opinião discutir ferramentas não é particularmente interessante, pode ser útil se por acaso enfrentamos alguma dificuldade tecnológica que nos dificulta o nosso trabalho, mas está a milhas da importância de discutir conceitos e formas de abordagem, de reflectir sobre os problemas que o mundo nos pôe, e da forma como a fotografia nos permite responder a essas solicitações.
O tipo de discussão de que falo, assemelha-se à que é praticada por académicos da fotografia, mas acho importante que os fotógrafos não se alheiem e deixem toda a discussão com os não-fotógrafos. Quando falo de discussão, falo de conteúdo, de intencionalidade, da ideia que fez nascer uma fotografia, uma série ou toda uma obra. Os académicos podem efectivamente discutir todas essas questões, mas os fotógrafos não devem ficar de fora, porque para além de todas as questões técnicas, é muito importante que os processos decisórios, de selecção e captação de imagens sejam trazidos à discussão.
As pessoas que completaram formação superior em fotografia ou outras artes têm toda a legitimidade para analizar tudo segundo os cânones que usam para toda a tradição visual, e muitos deles escrevem de uma forma brilhante e que nos mostra pontos de vista enriquecedores.
Mas nós que fotografamos não devemos assumir o papel de parentes pobres que não conseguem alinhavar umas palavras sobre o que fazemos, como e porquê.
Então porque não tomamos a palavra sobre as nossas obras ? Porque deixamos toda a discussão para os outros ?
Eu já escrevi sobre as circunstâncias em que alguns dos meus trabalhos ocorreram, nomeadamente no decorrer dos meus workshops. Ao reflectir sobre ele e colocar os textos disponíveis, estes podem servir para despoletar discussões interessantes e conhecer olhares surpreendentes sobre os mesmos assuntos.
Mas este problema também se revela quando a intenção é falar sobre o trabalho de outros fotógrafos. Há alguns meses atrás fui a uma apresentação de uma fotógrafa estrangeira sobre duas séries do seu trabalho. A audiência era composta por fotógrafos e pessoas com bastante interesse em fotografia. Todos presenciaram a apresentação com atenção, mas assim que chegou a parte em que se abriu a discussão, foi o silêncio. Eu fiz duas perguntas, os organizadores também contribuiram, mas ao fim de 15 minutos tudo acabou e as pessoas deram o assunto por terminado.
O alheamento da discussão sobre o conteúdo, faz com sejamos meros consumidores não reflexivos. Será que temos medo do debate sincero ? Somos demasiado humildes ? Será possível que não tenhamos nada de relevante para dizer para além do banal gosto/não gosto ?
Um dos maiores problemas da fotografia em Portugal é o sindroma do “café de bairro”
“Café de bairro“: Todos os dias os mesmos clientes com temas de conversa quase imutáveis, apreciando acima de tudo a familiareidade e a ausência de risco e mudança.
“Café de bairro“: Todos se conhecem, todos odeiam “conflitos”, cada cliente permanece fiel ao “seu” café.
“Café de bairro“: Os conflitos quando ocorrem têm sempre a ver com egos pessoais e nunca com conceitos.
O maior “café de bairro” da fotografia portuguesa chama-se “Olhares”, um verdadeiro estudo de caso. Independentemente da maior ou menor validade das fotografias e do mérito dos fotógrafos, é esse o espírito que ali reina. E esse espirito parece-me pernicioso para uma prática fotográfica saudável, já que favorece um prática de mimetismo de soluções de agrado fácil e penalizam pelo exclusão os autores que procuram quebrar esse circulo vicioso.
Um dos meu objectivos para combater esta situação, para além de divulgar bons exemplos de prática fotográfica, é suscitar o interesse em debater a fotografia de ontem e de hoje. Para contribuir para esse debate promovo desafios abertos à participação no site Estética fotográfica, concebi a apresentação “Trow Away the Camera“, e já fiz duas apresentações no IgnitePortugal sobre possibilidades criativas em fotografia.
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