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This was not the first book by Boris Vian that came into my hands. I think that before reading “The Heart-extractor” a friend has lent me "The Red Grass”, and then I bought the unavoidable “Foam of the Days” and also “And One Shall Kill All the Dreadful Ones”. I have, however, a very special connection, a bizarre love relationship with “The Heart-extractor”. First of all, the book itself, the object, which is the first volume of the Livro B collection from Editorial Estampa. It’s a tiny book, it seems like it was printed in a garage-based print shop and it has that childhood pocket treasure look, far from aesthetic accessories and excessively marketizised covers. And then, when you open the book, the pages are blue and the letters have traces of paint, traces from the printing types. It is a wonderful object. "The Heart-extractor” (“L’arrache Coeur” in the original) is, in my humble opinion, one of the most beautiful titles ever. It makes an itch inside our guts, something that, without a doubt, is confirmed when we turn each one of the blue pages – blue, as blue are the slugs that make the twins Joel, Noel and Citroen fly when they eat them. Vian was a surrealist, and his works are surrealistic. Here, everything is a metaphor for the human condition and there is a hopelessness that accompanies us from beginning to end. I do not remember feeling hope when reading “The Heart-extractor”, but rather a crudity of spirit and a shuffling of the senses, something that Vian knew how to do very well, inventing new timelines and creating terrible metaphors for human behavior and indignities. Clementine’s animalistic obsession by her three children is, from my point of view, one of the most intense and disturbing maternal love (possession?) stories I’ve ever read. And, being such a disturbing book, so full of lightness on the one hand, and heavier than the entire world carried on one’s back, on the other hand, “The Heart-extractor" is one of those books that I always keep close at hand in my bookshelf. Sometimes we need one of these heart arrhythmias in order to remember not to throw the consciousness corpse into the river. Here, in the real world, Glóira will not come to collect our shame. But sometimes we run into a blue slug, winking at us, inviting us to fly.

Este não foi o primeiro livro de Boris Vian que me veio parar às mãos. Creio que, antes de “O Arranca Corações”, um amigo me terá emprestado “A Erva Vermelha” e, entretanto, comprei o incontornável “A Espuma dos Dias” e ainda “Morte aos Feios”. Tenho, no entanto, um carinho muito especial, uma relação de amor bizarra com “O Arranca Corações”. Antes de mais, com o livro em si, o objecto, que é o primeiro volume da colecção Livro B da Editorial Estampa. Pequenino, com ar de livro impresso numa gráfica de garagem, e tem aquele aspecto de tesouro de bolso da infância,longe de acessórios estéticos e capas excessivamente “marketinguisadas”. E depois, quando se abre o livro, as páginas são azuis e as letras têm resquícios de tinta, vestígio dos tipos com que foram impressas. É um objecto maravilhoso. “O Arranca Corações” (no original, “L’Arrache Coeur”) é, na minha humilde opinião, um dos mais belos títulos de sempre. Faz cá dentro uma comichão nas entranhas que, sem dúvida, se confirma ao virar cada página azul – azul como as lesmas azuis que fazem voar quando comidas pelos gémeos Joel, Noel e Citroen. Vian era um surrealista, e surrealistas são as suas obras. Aqui, tudo é uma metáfora para a condição humana e há um desalento que nos acompanha do princípio ao fim. Não me recordo de sentir esperança ao ler “O Arranca Corações”, mas antes uma crueza de espírito e um embaralhar dos sentidos, algo que Vian sabia fazer muito bem inventando novos espaços temporais (135 de Abrilosto, 80 de Dezarço…) e criando terríveis metáforas para os comportamentos e indignidades humanas. A animalesca obsessão de Clementina pelos seus três filhos é, do meu ponto de vista, uma das mais intensas e perturbadoras histórias de amor (posse?) maternal que alguma vez li. E, por ser um livro tão inquietante, pleno de leveza por um lado, e mais pesado que o mundo carregado às costas, por outro lado, “O Arranca Corações” é um daqueles livros que está sempre à mão na minha estante. Às vezes precisamos de uma destas arritmias cardíacas para nos lembrarmos de não atirar o cadáver da consciência para o rio. Aqui, no mundo real, a Glóira não virá recolher as nossas vergonhas. Mas às vezes esbarramos com uma lesma azul a piscar-nos o olho, convidando-nos para voar.

Laura Alves – February 10, 2012

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