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India doesn’t exert a special fascination on me. Much less its cliché images that in 2001 populated my imagination about the country. Maybe that’s why the book End Time City has represented for me a revelation even more special. This book, filled with images of Benares, a Holy City, where people go to die, in the hope of ending their cycle of reincarnations and reach finally the deserved rest, is an object that I keep always close, and to which I return with some frequency.

At the time I bought it, I had 20 years old and was shifting my interest on painting and architecture, to photography and cinema. I was giving my the first steps in the black and white laboratory, with a teacher who was fond of Joel-Peter Witkin and Antonin Artaud.

At a Bertrand bookshop, with a small budget still in ‘escudos’, I was searching for what would be my first photo book. At the end of the day, all messy, sunk under a pile of books, there it was, wrapped in a clear and yellowish plastic dust jacket. It was an impulsive purchase – there was something in that book that prompted me to take it with me. Only when I got home I realized that I had in my hands a precious object. Because it was browsing through the pages that I realized something that changed indelibly my relationship with photography – more than be looked at, it has to be felt.

Michael Ackerman is a unique photographer, his work does not end at the boundary of the representation of surface or “reality”: he transforms and shapes them so that they mirror what he feels. To impose no limits on the way he looks at things is perhaps his only rule. Through a very personal language, black and white, grain, movement, format variation, he unveils images that go beyond the real, images that represent a very particular surrealism. The locations he evokes encompass time, geography, nature, construction, people, life and death. Stepping through End Time City, Ackerman guide us through what seems to be the story of a dream-sometimes with smatterings of nightmare, sometimes musical, punctuated with humour or tenderness. End Time City will always be a special book – its photos have a special quality that I rarely encounter. Maybe I will never see India with my own eyes, maybe I will never understand it, but I feel it very deeply in each one of these pictures.

A Índia não exerce sobre mim um particular fascínio. Muito menos as suas imagens-cliché que em 2001 povoavam o meu imaginário sobre esse país. Talvez por isso o livro End Time City tenha representado para mim uma revelação ainda mais especial. Este livro, repleto de imagens de Benares, uma cidade santa, onde as pessoas vão para morrer, na esperança de acabar o seu ciclo de reencarnações e alcançar por fim o merecido descanso, é um objeto que guardo sempre perto, e ao qual volto com alguma frequência.

Na altura em que o adquiri, tinha 20 anos, e desviava o meu interesse da pintura e da arquitetura, para a fotografia e para o cinema. Dava os primeiros passos no laboratório de preto e branco, com um professor que gostava de Joel-Peter Witkin e Antonin Artaud. Num outlet da Bertrand, com um pequeno orçamento em “contos”, procurava aquele que seria o meu primeiro livro de fotografia. No fim do dia, tudo desarrumado, afundado sob uma pilha de livros, lá estava ele, envolto num dust jacket de plástico transparente e amarelecido. Foi uma compra impulsiva – houve qualquer coisa naquele livro que me impeliu a levá-lo comigo. Só quando cheguei a casa percebi que tinha nas mãos um objeto precioso. Porque foi ao percorrer as suas páginas que percebi algo que transformou de forma indelével a minha relação com a fotografia – é que mais do que ser vista, ela tem que ser sentida.

Michael Ackerman é um fotógrafo singular, a sua obra não se esgota no limite da representação da superfície ou da “realidade”: ele antes molda-as e transforma-as de modo a que estas espelhem aquilo que ele sente. Não permitir limites ao seu olhar será talvez a sua única regra. Através de uma linguagem muito própria, o preto e branco, o grão, o movimento, a variação inconstante do formato, ele desvenda imagens que vão para lá do real, imagens que representam uma surrealidade particular. Os locais que ele evoca englobam em si o tempo, a geografia, a natureza, a construção, as pessoas, a vida e a morte. Percorrendo End Time City, Ackerman guia-nos pelo que parece ser a história de um sonho – às vezes com laivos de pesadelo, às vezes musical, pontuado até com algum humor ou ternura. End Time City será sempre um livro especial – as suas fotografias têm uma qualidade própria que raras vezes encontro. Talvez nunca veja a Índia com os meus olhos, talvez nunca a perceba, mas pressinto-a de forma mais profunda em cada uma destas imagens.

Magda Fernandes – April 2, 2012

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