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I like debates ever since I can remember. Better still, I like at least trying to understand the reason for a debate. And I remember vividly the debate sparkled in 1988 by the release of ‘The Satanic Verses’. I was 11 then and couldn’t understand why the gentleman that had done nothing more than write a book was so attacked and critisized. The title of the book told me: ‘This must be a very dangerous thing; after all, I was always told that Satanic things are bad and dangerous.’ And that was the only explanation I found then for such upheavel. But then I grew up, and curiosity grew, because the initial justification I had found simply couldn’t convince me. The title, always the title, came to my head countless times, and I remember thinking: ‘Why? What is behind this?’ I waited over 20 years until the right moment came for me to come across the book. I found it several times in shelves, in book fairs. And I always said to myself: ‘I have to take you with me.’ But the moment wasn’t yet right. I believe that there is a right moment for every book to be read. We don’t come across them by accident. And we must only read them then and only then. And one day, at a supermarket book fair, there it was. Alone in a corner. A single copy. Looking at me. I didn’t hesitate, I picked up immediately and carried it to the till. In my hand, because all books deserve more respect from me than supermarket groceries. I remember the expression of the cashier when she ran the bar code and saw the book’s title. I curiously came across that same expression in many other faces on the bus, in the subway, in the café, wherever I read this book. And all because of the title alone. There is always an expression of: ‘Oh My God! Satanic?!’, and so many people almost blessing themselves when they read the title or when I tell them the title. I began to understand part of the debate surrounding this book. The title, always the title! And the ignorance of those who see all the evil in the world in a simple title. When the title, specifically in the book, is almost accessory. It isn’t, really. But almost…

If they ask me what I thought of the book, I always say: it’s hilarious. And it is. The central characters, Gibreel Farishta – a famous Indian movie actor, and Saladin Chamchawala, later simply Saladin Chamcha – TV and stage actor in England, are in fact hilarious. Hilarious because they’re too real. They are flesh and blood like us, though fictioned. But real and just like us. With faults and virtues like us. And, I repeat: hilarious. Specially Gibreel Farishta, the Indian superstar, very presumptuous, a totally hollow philanderer. Empty. But also Saladin Chamcha. A ‘more or less’ famous actor in a British children’s TV series. A somewhat frustrated actor that is only used in TV for his voice. Who never gets a chance to show his face because he’s Indian, and that is only shown with alien or animal masks.

Desde sempre que me lembro de gostar de polémicas. Ou melhor, de querer pelo menos tentar entender o porquê das polémicas. E lembro-me perfeitamente da polémica que estalou em 1988 aquando do lançamento de “Os Versículos Satânicos”. Tinha 11 anos na altura e não percebia porque é que o senhor que nada mais fez do que escrever um livro, foi tão atacado e criticado. O título do livro dizia-me “isto deve ser uma coisa muito perigosa, afinal sempre me disseram que coisas satânicas são más e perigosas” e só assim encontrava, na altura, uma explicação para tanta polémica. Mas fui crescendo e a curiosidade foi crescendo porque a justificação que tinha encontrado inicialmente simplesmente não me convencia. O título, sempre o título, vinha-me à cabeça inúmeras vezes e lembro-me de pensar: “porquê? O que é que está por de trás disto?”. Esperei mais de 20 anos até chegar o momento certo para me cruzar com o livro. Encontrei-o várias vezes em prateleiras, em bancas de feiras de livros. E dizia sempre para mim mesma “tenho que te levar comigo”. Mas ainda não era o momento certo. Acredito que todos os livros têm o momento certo para serem lidos. Não se cruzam connosco por acaso. E só os devemos ler naquele momento e nunca noutro qualquer. E um dia, numa feira de livro de um supermercado, lá estava ele. A um canto, sozinho. Único exemplar. A olhar para mim. A chamar por mim. Não hesitei, imediatamente peguei nele e o levei na mão, até à caixa. Na mão porque todos os livros me merecem mais respeito do que mercadorias de supermercado. Lembro-me da expressão da cara da menina da caixa registadora quando passou o código de barras e viu o título do livro. Curiosamente, cruzei-me com essa mesma expressão em tantas outras caras no autocarro, no metro, no café, onde quer que fosse que me encontrasse a ler o livro. E tudo por causa do título, apenas. Há sempre um esgar de “meu Deus! Satânicos?!” e tanta gente que quase se benze quando lê o título ou quando lhes digo o título. Comecei a perceber uma parte da polémica à volta deste livro. O título, sempre o título! E a ignorância de quem vê num simples título todo o mal que há no Mundo. Quando o título, neste livro em específico, é quase acessório. Não o é, na realidade. Mas quase…

Se me perguntam o que achei do livro, digo sempre: é hilariante. E é. As personagens centrais, Gibreel Farishta – um actor famoso do cinema indiano, e Saladin Chamchawala, mais tarde apenas Saladin Chamcha – actor de televisão e teatro em Inglaterra, são de facto hilariantes. Hilariantes porque demasiado reais. São pessoas de carne e osso como nós, apesar de ficcionadas. Mas reais e iguais a nós. E com defeitos e virtudes como nós. E repito: hilariantes. Especialmente Gibreel Farishta, a super star indiana, muito convencido, mulherengo e absolutamente oco. Vazio. Mas também Saladin Chamcha. Actor “mais ou menos” famoso de uma série infantil da televisão britânica. Um actor algo frustrado que na televisão é utilizado pela sua voz. A quem nunca dão a oportunidade de dar a conhecer a sua cara, por ser indiano, e que se apresenta sempre com máscaras de extraterrestes ou outros bichos.

Catarina Filipe – April 25,2012

[translation: Ana Saragoça]

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