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Aquilo a que chamamos o mundo ocidental, e particularmente a Europa, estarão sempre em dívida para com a cultura grega. Parece-me legítimo ver na Odisseia o primeiro romance europeu, matriz de todos os outros, e a sua (re)leitura tem-me acompanhado há muitas décadas.

Ulisses é um arquétipo do ser humano em viagem pela vida, e qualquer um se pode identificar com ele, sem medo de cair no pecado da hubris. Daí a persistência e a ressurreição do mito, nas várias literaturas, em diferentes épocas, até à actualidade.

Na Odisseia Ulisses é um homem que considera a vida mortal suficientemente atractiva tal como é, e não aceita trocá-la por nada, nem mesmo pela imortalidade. É portanto uma figura positiva, de afirmação, e a Odisseia é a história de um amor feliz. Ulisses quer voltar, e volta, para casa. Para a mulher amada. Viajante, navegador, homem de perigos e situações-limite, conquistador de cidades, (a ele se deve, na tomada de Tróia, o estratagema do cavalo), sabe usar a inteligência e a racionalidade, mas também a intuição e a astúcia, é capaz de recuar e pensar, mas também de rapidamente captar e apreender novas situações a que se adapta.

É também eloquente, tem o dom da palavra, sabe liderar, persuadir e narrar. Desde logo a sua própria história, como faz na corte de Alkinoos, onde, por um golpe de mestre, Homero, que domina com a maior eficácia as artes surpreendentes da narrativa (ainda válidas milénios depois), coloca o aedo Demodokos cantando a história de Ulisses. Ao revelar a sua identidade, Ulisses substitui-se ao aedo e passa a ser ele próprio o narrador, ocupando ao fazê-lo o lugar de Homero.

Contar a sua história é conhecer-se, saber quem se é, ter integrado a experiência vivida. O momento em que Ulisses narra/assume a sua história – a sua identidade – é o momento em que chega ao fim da errância, e merece voltar a casa. Ulisses é aliás o único que volta. Os seus companheiros estão mortos, naufragram, perderam-se, nada mais sabemos deles. Pois só regressa a casa quem se encontrou a si próprio no caminho.

Mas a Odisseia é, como referi, uma história de amor: Ulisses volta porque quer voltar. No vasto mundo exterior das aventuras, é o corpo da mulher amada que o guia, como força centrípeta, para a interioridade da casa, do leito onde a reencontra, numas segundas núpcias que reactualizam as primeiras. A tensão exterioridade-interioridade é o ritmo subterrâneo da narrativa.

Por amor de uma mulher, mortal como ele, Ulisses recusa a imortalidade oferecida por Calipso, vence o canto das sereias e os poderes mágicos de Circe. Regressa a Ítaca, reentra em casa, volta ao papel de rei, de pai, de esposo, e, segundo a profecia de Tirésias, na descida ao lugar dos mortos que também fez parte do seu percurso, terá “uma morte suave” quando chegar a hora.

Assim nos diz a leitura “canónica” da “vulgata” homérica.

No entanto é interessante verificar que a Antiguidade não considerou a versão de Homero suficientemente satisfatória, nem a única possível, e por isso nos deixou outras, deveras estimulantes, que se abrem a interpretações curiosamente actuais. Assim por exemplo a ideia de que Penélope não esperou pacientemente vinte anos por Ulisses, mas se deitou com todos os pretendentes – e eram cento e vinte e nove – não é uma irónica visão feminista do século XXI, mas sim uma versão da Antiguidade. Porque, como acontece sempre com os grandes mitos, nunca um narrador – nem mesmo Homero – os consegue abarcar por inteiro.Precisam sempre de ser contados de novo, repensados e transformados. Os mitos estão vivos, e por isso evoluem e passam por metamorfoses, sem deixarem de ser intemporais.

Entre as versões modernas da Odisseia, a de Joyce é, como se sabe, incontornável. No entanto Dublin nada tem a ver com Ulisses, a não ser na vontade e na imaginação joycianas.

A cidade ideal para reler e repensar a Odisseia não é Dublin, mas Lisboa. O mito da fundação de Lisboa por Ulisses tem pelo menos dois mil anos, vem de antigas fontes clássicas, difundidas pelos romanos, a quem interessava prestigiar com a aura da cultura helénica uma cidade importante do seu império.

Fundada por uma personagem de ficção, Lisboa torna-se ab initio uma cidade literária, desliza insensivelmente para uma outra dimensão, mais abrangente: pela mão do herói de um livro, também ela fruto de um livro, Lisboa converte-se num texto (visual e mental) e desafia o visitante a lê-la/decifrá-la, na sua beleza natural e nos seus trinta séculos de história(s).

Uma cidade multifacetada e fascinante.A descobrir.

Teolinda Gersão – 7 de Outubro de 2013

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