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JE SUIS VILHENA

José Alfredo Vilhena Rodrigues, VILHENA, nasceu em 1927. É um dos nossos cartoonistas com mais tempo passado na prisão. Entre 1962 e 1966 esteve quase todo o tempo preso, em resultado de, até ao 25 de Abril, ter escrito cerca de 70 livros e de nunca ter parado de usar a censura como tema preferencial nas suas abordagens “estéticas”. Vilhena afirmou-se como um homem livre. Mesmo em liberdade, foi constantemente processado, perseguido. Foi quase sempre falido que se defendeu. A si próprio ou outras vezes com a ajuda dos amigos.

O estado português nunca o reconheceu.

Eu reconheço-o e agradeço-lhe agora, aqui, como posso. Cresci com a Gaiola Aberta. Literalmente. Isto, se a minha Gaiola for a cabeça. Ajudou ter tido todos os números desta publicação, encadernados, à minha disposição. Mas só ajudou porque mos deram a ver/ler. Mas só mos deram a ver/ler porque me queriam de Gaiola – verdadeiramente – Aberta.

Gaiola Aberta é uma publicação de Abril. É vermelha por fora e de todas as cores por dentro. VILHENA publica o primeiro número a 15 de maio de 1974. Não me canso de o imaginar, furiosamente a escolher textos e desenhos, seleccionar, paginar, editar, escrever, numerar, imprimir, enviar, corrigir, tudo em menos de um mês.

A urgência da liberdade.

No dia 7 de janeiro de 2015 em Paris a ignorância, o fanatismo e o medo mataram 12 pessoas. Entre eles vários cartoonistas. Nesse dia fui buscar as Minhas Gaiolas Abertas à estante com porta de vidro – a estante que uso para os livros que têm obrigatoriamente de estar defendidos do pó – e chorei. Em silêncio.

Para esta sessão

eu e o Mário – a quem aqui agradeço tanto – escolhemos o Animatógrafo de Lisboa como pano de fundo. Não entrámos. Porque não quisemos. Porque não era preciso. Porque sabemos onde é. Porque decidimos não o fazer. Mas só porque hoje é possível decidir entrar ou não. Porque é belo que esteja aberto. Porque é muito bela a sua fachada Art Deco.

A obra de VILHENA fala por ele mas não chega. A obra de CHARLIE falará por eles todos mas não chegará nunca. A urgência da liberdade. Cabe-nos a todos defendê-los do pó do esquecimento, ao mesmo tempo que os retiramos das estantes e os erguemos sem medo. A sorrir. Sempre.

Catarina Romão Gonçalves – maio de 2015 – 41 anos depois da publicação do primeiro número.

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