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Não gosto nem nunca gostei de romances.
Li muitos há muitos anos atrás. Achei que devia devorar clássicos para perceber melhor a vida. Mas a vida nos romances era normalmente previsível. E nunca me surpreendi com os finais. Por isso ganhei o vício de ler vários ao mesmo tempo. A preocupação moralista ou a ausência da mesma nos finais trouxe-me sempre a sensação de deja-vu. Raras foram as vezes que isso não aconteceu. Posso indicar quando. São aqueles finais em que ninguém assenta a poeira. Deixa-se tudo revolto para podermos pensar em diferentes planos de aterragem. Afinal quanto mais finas as linhas da mão, maior é o livre arbítrio.
Por outro lado, faltou-me sempre gritos nos romances. Ou eram em forma de pastilha elástica. Peixe cozido, ou água com açúcar. Para mim, o certo eram os contos; curtos e com um murro no estômago. Uma arte difícil. Mas eu queria balas e por isso virei-me para a poesia.
O livro da minha vida por isso mesmo é um livro de poesia. Pequeno e escrito em circunstâncias para mim, arrepiantes. Do coração de um dos porta vozes da Beat Generation durante uma das suas passagens pelo hospital psiquiátrico de Rockland, nasce de uma recomendação médica (entre alguns choques eléctricos para “curar” a suposta esquizofrenia) de terapia artística; o falar em voz alta, o gravar de pensamentos. E por isso esta escrita soa tão bem falada ao meu ouvido. E a bala é certeira em mim.
É “o” livro. Não é só o melhor retrato desta jovem minoria nos anos 50 mas da importância que “Ser minoria” deveria ter ainda hoje. Numa era minada pela importância de ser gostado (não amado), de sacrificar em prol do ego (não de amor próprio) e de parecer (nunca de ser), Allen Ginsberg oferece-nos pérolas no seu estado mais puro, principalmente quando nos manda à cara uma bomba chamada “Song”; o melhor poema que já li. Um exercício de simplicidade como é difícil de ver em qualquer língua sobre o amor; a língua mais difícil de ser falada pela maioria. Mas como isto é sobre os que teimam em ir por caminhos difíceis- corações ao alto! E viva a vulnerabilidade dos que teimam traduzir tudo em nome dele.

Margarida Rodrigues – 16 de Julho de 2015

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