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A Gramática da Fantasia – Gianni Rodari

A Gramática e a Fantasia… detesto uma e amo a outra. Tenho com a gramática uma relação difícil. Reconheço a sua importância mas admito que quando escrevo as letras começam a perder rapidamente a sua forma à medida que os pensamentos fluem mais depressa. Vou estilizando todas letras numa espécie de onda continua, achatando as palavras em linhas e os meus apontamentos normalmente resumem-se a uma sequência de traços e pontos onde não cabe a preocupação com a gramática. Fica como que uma tradução em código morse daquilo que pensei, uma espécie de eletrocardiograma de ideias.

Regra geral, passado algum tempo, não consigo ler nada. Mas, curiosamente, consigo intuir aquilo que eu queria registar. Nesse momento, ler deixa de ser aquele processo de observação e interpretação de símbolos e passa a ser um exercício mental de recuperação de ideias, de imaginação, de reconstituição do pensamento e do próprio momento em que escrevi, o que para mim, apaixonada pela criatividade e pela fantasia, é na verdade mais interessante.  

Neste livro, Gianni Rodari explora essa capacidade que todos temos de imaginar, de criar e recriar momentos e a forma como as palavras impactam o nosso léxico, chocalhando a imaginação como uma pedra num charco. O livro explica como podemos usar as palavras como brinquedos para criar histórias, para criar poesia, para inventar novos mundos e explorar caminhos que nunca percorremos dentro de nós. Fala sobre a infância, sobre o humor e sobre como os adultos podem desenvolver a imaginação das crianças e a sua (mas também o espírito crítico, a auto-confiança, etc).

Foi o primeiro livro que me convidou a olhar para as palavras como pequenas peças do puzzle que é a minha imaginação. De forma muito prática, o autor ajudou-me a explorar as possibilidades que elas encerram através de exercícios que convidam a descobrir as histórias que nunca foram visitadas.

Se hoje tivesse aplicado aquilo que aprendi com o livro, este artigo seria muito diferente. Se calhar começava assim:

Os meus apontamentos parecem um eletrocardiograma de ideias. Quando me apercebi disto fiquei preocupada e fui ao médico. Mostrei-lhe o meu bloco de notas e ele concluiu que as minhas ideias estão dentro do intervalo normal para a minha idade mas detetou algumas arritmias lógico-conceptuais e que é possível que tenha um soprozito entre a página 5 e a 7, mas não é nada de grave. Aconselhou-me a perder algum peso na sintaxe e a fazer exercício mental após cada parágrafo. No fim disse-me para evitar o excesso de palavras poli-saturadas como “inconstitucionalíssima” porque como têm muitas sílabas e como eu escrevo tudo a direito fica a parecer que morri. Antes sair deu-me uma receita para aviar na farmácia mas quando olhei para o papel, não havia letra de médico. Tinha as palavras impressas a computador. Não percebi nada.

Anita Silva – 6 de Agosto de 2015

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