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Toda a Mafalda – Quino

Estive até à última para me decidir por um só livro. E quando digo até à última foi até a camera do Mário estar preparada para disparar. Toda a Mafalda do Quino, O Principezinho ou A Morte do Palhaço e o Mistério da Árvore do Raúl Brandão. Estou com os livros na mão. Sempre tive problemas com o escolher.

Mário: Qual é o que mais definiu a tua vida?

Toda a Mafalda. Sem piscar os olhos.

Mário: Ok, vamos começar. Descontrai. Queres que conte uma piada? Estás muito presa.

(É tão isso)
Este foi um dos primeiros livros que li, comprado numa feira do livro por uma amiga da minha mãe que me costumava levar a essas coisas, já que os meus pais nunca puderam. Aprendia a juntar as letras e a pronunciar palavras difíceis, para chegar a casa, sentar-me no chão do quarto e abrir o imenso livro para poder visitar os meus melhores amigos. De frisar que, como filha única que sou, este sentimento de companheirismo e amizade era mais que sentido.

As minhas perguntas difíceis, aquelas que filhos fazem aos pais, não foram o “De onde vêm os bebés?”, mas sim o que significa “reacção” e “liberdade”, palavras desenhadas quase sempre a bold, muito carregadas e muito grandes, que saiam da boca daquelas personagens. “Caramba. Se são tão grandes é porque devem ser importantes”. Os tempos em família começaram a ser constrangedores. Os meus pais, que nunca tiveram a oportunidade de estudar muito e que também nunca se interessaram por estes temas, despachavam e esquivavam-se sempre. Foi também quando algo se quebrou e percebi que os pais não sabem tudo, são humanos. A partir desse momento nascia em mim uma auto-didata. A tão moderna self made woman.

Entusiasmada pela busca solitária pelos significados das coisas, e algum aborrecimento à mistura, fez com que um dos livros que lesse a seguir fosse a Morgadinha dos Canaviais, um dos maiores livros que tínhamos em casa adquiridos numa daquelas colecções do círculo de Leitores, que só serviam para enfeitar as estantes da sala. Um romance clássico daqueles. Com tantas imagens e sensações completamente desconhecidas, não tinha referências para perceber aquelas formas de existir. Foi assim que descobri nomes, sintomas e terapêuticas de sentimentos e que, até hoje, se tornaram expectativas terríveis no campo amoroso.

A Mafalda foi real, ensinou-me o lado certo, educou-me e hoje em dia consegue dizer muita coisa sobre mim. A sátira, o chamado “mau-feitio”, a preocupação masoquista com o mundo que não se controla, a ansiedade entranhada, a “mania que é esperta” e que está sempre do lado certo, o ser opinadora compulsiva mesmo quando ninguém lhe pergunta nem quer saber a opinião…Com a enorme diferença de que sopa é das minhas coisas favoritas do mundo.

Cátia Domingues, 23 de Fevereiro de 2016

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