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A Taberna – Emile Zola

Na casa da minha avó havia uma dispensa, onde estava também a oficina do meu avô, onde estava também a biblioteca. Biblioteca, essa, que tinha apenas três livros; A Taberna do Émile Zola, A Terra, também do Émilie Zola, e um anuário em inglês, The South and East African Year Book and Guide, de 1921.

A minha avó era analfabeta e o meu avô, que tinha feito a 2ª classe à pressa, dizia que tinha aprendido realmente a ler em casa com ajuda da Cartilha Maternal de João de Deus. Gosto de pensar que os livros do Zola também deram uma ajuda. Pelo menos gosto de ter essa ideia romântica de imaginar o meu avô, depois de estudar as letras na cartilha, a ter o desejo de as ver todas juntas a formar uma frase, e depois ter o prazer de descobrir o sentido dessa frase. Depois da morte do meu avô os livros continuaram no seu lugar, e só de lá saíram quando a minha avó morreu e fiquei eu na posse da “biblioteca da família”. Essa parca biblioteca caseira a que se juntavam duas ou três “anitas”, e as “As Histórias do avozinho” não me impediu desde cedo de procurar o que me fazia falta, mais livros. É aquilo que eu chamo na brincadeira de “determinismo 0, Isabel Mões 1; não tens, por conta dessa condição o mais lógico é não ires procurar, mas tens uma vontade inexplicável de procurar na mesma.

Com 17 anos era uma assídua frequentadora da Biblioteca Municipal de Belém, passando horas a escolher autores nos pequenos quadrados de cartão. Um dia, com vinte e poucos anos, li finalmente A Taberna e fiquei fascinada. Fiquei fascinada em primeiro lugar porque achei o Zola parecido com o meu escritor de eleição na altura, Dostoievski, e depois porque me surpreendeu a maneira como ele consegue descreve com tanta acutilância e humanidade aquela comunidade de operários nos arrabaldes de Paris no final do século XIX. Não é um retrato fútil e exterior de quem vê de fora, é um retrato de pormenor, descrevendo sem contemplações as condições de vida daqueles trabalhadores, as ruas, as casas, os pátios, as relações entre as pessoas, etc.

A tudo isso juntamos uma extraordinária personagem principal, Gervásia, uma mulher que luta contra todas as adversidades por uma vida mais digna, porque acha possível, porque tem de ser possível viver de outra maneira. E essa vida, naquela comunidade de operários, transportou-me para a minha infância, para o bairro onde eu cresci. Noutro tempo, é certo, mas com a mesma vivência de um bairro operário, onde a vida se fazia à conta de muito sacrifício. Um bairro com zaragatas por quase nada, com as mantas no verão estendidas à soleira da porta, com árvores de fruto para roubar nêsperas e figos, com pedra na calçada para esfolar os joelhos, com uma taberna ao cimo da travessa, onde de vez em quando assomava um miúdo para ir buscar o pai que tardava, com mercearias de comprar fiado, com a solidariedade e união de quem sabe que só nos temos uns aos outros.

Conheci algumas “Gervásias” no meu bairro e na minha família, conheci muita gente parecida com as personagens do Zola, conheci aquela tristeza, igual à tristeza do livro, a tristeza que nos vai invadindo à medida que tudo se vai desmoronando e a esperança de um final feliz vai desaparecendo.

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