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Siddhartha – Hermann Hesse

Há 7 anos, “Siddhartha” veio parar às minhas mãos como um náufrago de uma viagem que não passou das primeiras páginas. Na época, partilhava um blog privado com algumas amigas, onde fazíamos trocas, devolvendo utilidade às inutilidades que cada uma tinha. Este livro foi-me entregue com a advertência que seria desinteressante. Demorou alguns meses até que espreitasse pela primeira vez para dentro das suas páginas e sentisse o cheiro doce do rio e os sons do bosque, vivos e pulsantes, à minha espera.

Mas esse dia chegou. Sem qualquer expectativa, e desconhecendo o destino desta jornada, comecei a percorrê-la devagar. A cada capítulo, uma parte supérflua de mim ia subtilmente sendo removida, ficando pelo caminho, que prossegui com perseverança, em velocidade de cruzeiro. Não foi amor à primeira página. Contudo, a dado momento, “Siddhartha” era eu, os seus pensamentos eram os meus e, no fim, o rio de águas cristalinas que percorreu toda a narrativa veio desaguar nos meus olhos. Nunca mais fui a mesma.

Como se a história passasse das folhas de papel para a vida real, deixei para trás as minhas posses, relações, apegos e até o próprio livro, que permaneceu vivo em mim. Anos depois, foi-me oferecido outro exemplar, com uma dedicatória cheia de amizade e bondade e, assim, recuperei as palavras escritas de uma viagem de onde nunca mais se regressa.

Sinto-me a cometer uma deslealdade para com o brilhante e refinado Eça de Queiroz e todos os seus  livros que fizeram parte da minha vida, Gabriel García Marquez e os saturninos “Cem Anos de Solidão” onde mergulhei de cabeça, Henri Charrière e “Papillon”, que vivi intensa e dolorosamente. Porque também estes são os meus preferidos. Mas “Siddhartha”… é o tal.

Na noite anterior à sessão fotográfica, deitei-me apreensiva com a perspectiva de ter de escrever sobre um livro que não se pode explicar por palavras, não me achando digna de dissertar sobre o seu conteúdo sem o desrespeitar. Adormeci, e sonhei que a personagem principal de “Siddhartha” se sentava à minha frente, revelando-me que guardo algo mágico e valioso. Mostrou-me o que era. De manhã, a luz que envolvia o sonho transbordou sobre o livro, iluminado pelo Sol que entrava a jorros pela janela. O livro voltou a falar, o rio a correr, as árvores a abraçarem-me. Com humildade e gratidão.

Hazel Claridade – 27 de Março de 2016

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