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O Elogio da Sombra – Junichiro Tanizaki

No princípio deste século não fazia ideia quem seria Junichiro Tanizaki. Tinha em mãos o grande desafio de realizar, produzir e divulgar um programa da chamada World Music, na Antena 3 – Planeta 3. Estava, por isso, muito atenta e receptiva às novidades nas lojas de discos. No dia da compra, decidi que iria escolher um CD apenas pela capa do álbum. Assim fiz. Descobri das artistas mais interessantes que conheci até hoje, a tuvanesa Sainkho Namtchyklak. O mesmo aconteceu na loja mais ao lado, iria escolher um livro pelo título, apenas!

“O Elogio da Sombra” atraiu-me de tal forma que o facto do seu autor ser japonês foi garantia para a surpresa que viria daí. Tanizaki usa o tema da arquitetura como veículo de transmissão de, mais do que cultura, maneiras de pensar, de dialogar com o espaço físico. Mas como pode a sombra ser elogiada? Tanizaki explica como e, mais interessante ainda, o porquê. A ideia do autor foi pegar em pormenores da arquitetura japonesa e fazer um prós e contra Ocidente/Oriente. Nós, por cá, não fomos/somos ensinados a elogiar o lado mais escuro, privilegiamos a luz, o brilho, o que reluz, o alarido:  “… de uma forma mais geral observar um objeto reluzente, transmite-nos um certo mal estar. Os ocidentais usam mesmo para a mesa utensílios de prata, de aço, de níquel para os fazer brilhar…  é certo, servirmo-nos de vasilhas, taças, frascos de prata, mas estamos longe de os polir como eles o fazem. Muito pelo contrário: rejubilamos quando vemos as suas superfícies escurecerem e, com a ajuda do tempo enegrecerem completamente.”

A sombra remete-nos para um mundo paralelo e a diferença faz pensar. Depois de reler o que Tanizaki escreveu em 1933, há uma atualidade latente na sua comparação. Tempos de excesso de opinião, tempos de vozes altas que estalam brilho. O outro lado é urgente, um certo recolhimento, algum silêncio e reconhecer que nem sempre a nossa opinião se compadece com a urgência dos nossos dias. Ou, pelo menos, precisamos de uma certa sombra para a pensarmos.

“… Quanto a mim, gostaria de tentar fazer reviver, pelo menos no domínio da literatura, esse universo de sombra que estamos prestes a dissipar.”

A sombra resistiu e chegou até mim em 2003, emprestei-o. No regresso, perdeu-se. Comprei outra edição  em 2010 e por cá resiste. Agora, partilho-o aproveitando o convite do Mário Pires com a certeza que, mesmo não ficando na sombra, jamais se perderá.

Raquel Bulha – 10 de Abril de 2016

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