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Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres – Clarice Lispector

Não sei há quanto tempo o tenho, mas há muito,

E lembro-me que o que me atraiu foi a capa. Lembro-me de o ter folheado na livraria e de bater com os olhos neste parágrafo:

“Pareceu-lhe então, meditativa, que não havia homem ou mulher que por acaso não se tivesse olhado ao espelho e não se surpreendesse consigo próprio. Por uma fracção de segundo a pessoa se via como um objecto a ser olhado, o que poderiam chamar de narcisismo mas, já influenciada por Ulisses, ela chamaria de: gosto de ser.” – uma aprendizagem ou o livro dos prazeres – Clarice Lispector

Fiz um quadro para o meu quarto com estas palavras.

Nunca o guardei como uma história bonita, como um romance, embora o fosse, e também não era simples de ler; havia o “problema” de estar em brasileiro. Gosto de ouvir brasileiro mas não de me ouvir pensar assim, se é que me faço entender.

Não era a minha história preferida, essa era “O Amante” de Marguerite Duras.

Não sei quantas vezes li “o Amante” mas mais de dez vezes certamente, mas este li mais. Li mais vezes em frases soltas.

E guardei-o, no sentido mesmo de tesouro; estava sempre por perto, na mesa de cabeceira,  ou no saco quando precisava de inspiração. com frases sublinhadas, páginas dobradas. Era uma espécie de livro companhia e nunca mais encontrei um que gostasse tanto.

Quando o abro, é como um espelho, que reflecte a mulher, as mulheres, e os homens que finalmente aprendem sobre si, e se reconhecem com os seus desejos, os medos, e se aceitam, não apenas por aceitar, mas porque a uma certa altura aprendem a gostar de si. Só quando gostamos de nós, podemos aprender a gostar de um outro.

É como se quando o abro me recorde sempre que podemos olhar-nos, e gostar de nós, sem pensar que somos lindas de morrer ou mais do que os outros. Somos apenas gente e podemos gostar do que vemos. É permitida essa ousadia de finalmente nos reconhecermos. Não precisar-mos de um alter-ego. Apenas o Eu.

“ele dissera uma vez que queria que ela, ao lhe perguntarem seu nome, não respondesse ‘Lóri’ mas que pudesse responder "meu nome é eu”.

Zélia Évora – 1 de junho de 2016

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