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Tao Te Ching – Lao-Tse

Tao Te Ching, “Livro que leva à Divindade” ou “O Livro que revela Deus” , nasceu na China há dois mil e seiscentos anos. Encontra-se entre os Grandes Livros da História da Humanidade. Os seus 81 pequenos aforismos contêm em si uma sabedoria profunda que veio a inspirar diversas filosofias e religiões, principalmente o Taoísmo e o Budismo Zen.

Lao significa idoso, maduro, sábio que significa literalmente ancião, com o sentido de espiritualmente maduro. Tsé é o sufixo de muitos nomes chineses, significando menino, menina, jovem, adolescente. Lao-Tsé é, pois, o jovem sábio, o adolescente maduro.

Os aforismos contêm paradoxos, “paradoxo” do grego ou absurdo do latim quer dizer “além da mente”, “ultramental”, referindo-se a uma verdade que a inteligência não pode alcançar, nem afirmar nem negar. Esta dimensão espiritual, para além do racional, essa dimensão absurda e paradoxal, a que não se acede por via da mente é, pois, a contemplada no livro. Se  quem lê não estiver já para ela desperto dificilmente compreenderá o verdadeiro sentido da filosofia de Lao-Tsé. É um livro que parte da experiência cósmica, da alma cósmica, da vivência silenciosa, da verdade interior.

O próprio nome traduz essa intenção. Tao, o absoluto, o Infinito, a Essência, a Suprema Realidade, a Divindade, a Inteligência Cósmica, a Vida Universal, a Consciência Invisível, o Insondável,… bem distinto do Deus representado num ser como sucede nas teologias ocidentais. Te pode ser traduzido por caminho, directriz, revelação. Ching, livro, documento, escrito.

O livro é como um fio de Luz sobre a experiência do Infinito, do Absoluto. Na edição traduzida para português da Martin Claret, as notas do tradutor ajudam a compreender a sabedoria que corre o risco de ser para alguns demasiado hermética.

Este livro é também o elogio do homem sábio e da humildade. Deixo o poema número 24 para despertar à leitura:

“Quem se ergue na ponta dos pés

Não pode ficar por muito tempo

Quem abre demais as pernas

Não pode andar direito

Quem se interpõe na luz

Não pode luzir.

Quem dá valor a si mesmo

Não é valorizado.

Quem se julga importante

Não merece importância.

Quem se louva a si mesmo

Não é grande.

Tais atitudes são detestadas

Pelos poderes celestes.

Detesta-as também tu, ó homem sapiente.

Quem tem consciência da sua dignidade,

De ser veículo do Infinito,

Se abstém de tais atos”.

Senti depois de o ler há cerca de um ano atrás que era importante que este livro – que me chamava há algum tempo – estivesse à minha cabeceira, junto a outros igualmente fundamentais. Ele foi livro de cabeceira de reis, chefes de estado e grandes líderes espirituais que beberam na sua Sabedoria, como na Fonte Sagrada.

Acho que os livros chamam as pessoas e que, no momento certo, chegam até nós os livros que nos podem ensinar o que necessitamos de aprender.

Lê-lo e relê-lo fortifica o sentimento de Paz interior, de que existe algo de mais profundo e com sentido para além do turbilhão das emoções e dos acontecimentos com que a vida nos vai confrontando, de caminho intuitivo do Universo quando para isso estamos despertos, de que o verdadeiro Mestre e o verdadeiro Deus residem dentro de nós e que é pela abertura espiritual, pelo silenciamento, pelos actos de amor e de compaixão para com os outros, pela escuta atenta do nosso Eu interior que se encontra o caminho da Verdade. Bondade, suficiência e modéstia representam o carisma do Homem cósmico, do homem que ligado ao cosmos, se assume como eterno aprendiz mesmo sendo um verdadeiro Mestre.

É estranho que muitos dos livros da sabedoria universal sejam desconhecidos da maioria das pessoas que preferem livros de leitura mais fácil e mais superficial. São sinais dos tempos de superficialidade e da cultura do descartável em que vivemos. Apesar de ter milhares de anos e de ter sido escrito no contexto da sociedade chinesa do seu tempo, a sabedoria amadurecida que transmite é universal, bem pertinente e adequada na reflexão sobre as grandes questões que marcam o nosso tempo.

Joana Miranda – 9 de Junho de 2016

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