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“The Hours” –  Michael Cunningham

There is a beauty in the world, though it’s harsher than we expect it to be.
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Entre os livros que me fascinaram, deixaram uma marca indelével ou traduziram algum tipo de evolução interior tornou-se um verdadeiro desafio explicar porque razão surgiu "The Hours” de Michael Cunninham no meu espírito quando interrogada pelo Mário Pires acerca de uma obra da minha predileção para este magnífico projecto que são as “Book Loving Girls”.
É simples: Recuso-me a admitir ter feito algum tipo de seleção.
E passo a explicar: Foi o livro que dentro de mim vivia, aparentemente adormecido depois de tantos anos, que ousou responder em meu lugar (antes que eu pudesse sequer intervir). A sério.
É uma excelente obra, aprecio imenso tudo de Cunningham, mas não será decerto o melhor livro que já li na minha vida. Aquilo que me une a “The Hours” talvez tenha mais ver com algum tipo de fixação (de ordem passional) bastante mal resolvida – e, no entanto, continuada fonte de consubstanciação.
Fui procurar a minha velha edição paperback (em versão original, bastante maltratada, provavelmente comprada em algum aeroporto) e retomei nova leitura integral, regressando a mim própria tal como eu era há 17 anos atrás – e há 15, há 12, há 9 anos atrás – porque os livros que eu amo, pelos quais cultivo obsessões, crescem comigo durante um tempo, são lidos repetidamente, por vezes anos a fio – esses livros vão comigo a muitos lugares. Neste, entre as páginas amareladas, com cantos dobrados, encontram-se bilhetes de metro parisiense, nódoas de chá e por vezes coisas indecifráveis escrevinhadas nas margens em momentos de maior emoção.
“The Hours” é uma daquelas obras que funciona como cápsula do tempo de mim mesma – e, sim (porque não admiti-lo?), caixa de Pandora.
Relendo, vejo-me com várias idades diferentes – desde aquela em que tudo é uma possibilidade até outras horas e lugares que não pareciam oferecer uma porta de saída.
Diz Laura Brown : “What does it mean to regret when you have no choice”.
Verifico, mergulhando de novo nesta narrativa não-linear, feita de épocas, personagens, fluxos de consciência e monólogos interiores paralelos que esta ainda me comove e afecta profundamente. Produz-se uma estranha identificação com cada uma das três personagens femininas principais: Virginia Woolf (baseada na escritora), Laura Brown e Clarissa Vaughan – e, adicionalmente, Richard Brown.
Declara Richard a certo ponto : “We want everything, don’t we?”.
Tenho uma certeza: A maior felicidade que este livro trouxe foi (tal como as matrioshkas) conter outro livro dentro. E outro, e outro, e outro.
“The Hours”  mostrou-me o caminho para Virginia Woolf e “Mrs. Dalloway” – bem como “To The Lighthouse”, “Orlando”, diários, biografias várias e Vita Sackville-West – a partir dos quais Cunningham soube traçar paralelismos intencionais e assumidos, sempre hábeis e elegantes.
You cannot find peace by avoiding Life, Leonard”. A realidade confunde-se com a ficção nesta frase que Michael Cunningham ousa pôr na boca de uma Virgínia Woolf que não podemos dissociar da verdadeira, de tão real, amando profundamente a vida até decidir pôr-lhe um ponto final. Maravilhosa Virginia.
Assim vivo esta história peculiar da qual ainda não logrei libertar-me. Sem paz alguma – mas muito, muito viva.
Ignoro quantas vezes mais voltarei a ler este livro: É possível que venha a fazê-lo até compreender a ressonância essencial que provoca em mim. E até poder articulá-la. Com sorte, virei a identificar esse lugar ou momento impreciso e fugidio e então direi, como Clarissa Vaughan: “(…) there was such a sense of possibility. You know, that feeling? And I remember thinking to myself this is the beginning of happiness. This is where it starts. And of course there will always be more.

Yara Letartre – 9 de Outubro de 2016

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