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Enki Bilal – A Mulher Armadilha

Li «A Mulher Armadilha» de Enki Bilal sem ter lido primeiro «A feira dos Imortais», o livro que o antecede. De qualquer forma isto não foi importante porque fiquei completamente siderada com a história, a trama e as personagens mesmo sem perceber muito bem o contexto e de onde elas vinham. Aliás, tive que ler várias vezes «A Mulher Armadilha», ao longo dos anos, para conseguir apreender as suas subtilezas e particularidades tão fora do comum.

Comprei este livro em 1997, já trabalhava como jornalista e estava a terminar a licenciatura em jornalismo. Jill Bioskop, a personagem principal, é uma jornalista que vive em 2025 mas publica as suas reportagens no passado, na década de 1990. A possibilidade de poder-se transitar do futuro para o passado, e vice-versa, foi das coisas que mais me fascinou porque já na altura eu acreditava nesta realidade quântica. Jill é uma figura de poder misteriosa, verte sangue e lágrimas azuis, e vive numa Londres que parece ser uma cidade sitiada onde pouquíssimas pessoas conseguem viajar para fora sem autorização do rei. Ela está a cobrir um conflito entre as minorias afro-paquistanesas e zubenubianas, e depois consegue fugir para Berlim onde acaba por investigar outro conflito onde uma das fações são os islamcristãos.

Lembro-me de, na altura, pensar na eventualidade de estes grupos poderem existir no futuro, e no que esta mistura entre credos e culturas significava em termos de evolução do ser humano. A Europa era um lugar muito diferente do de hoje. Tanto Londres como Berlim eram espaços de aspeto urbano industrial decadente com populações compostas por indivíduos que tanto revelam serem humanos como máquinas ou animais, ou tudo isto junto. Uma misturada inacreditável que, no entanto, me pareceu bastante plausível. Quem me conhece sabe como as culturas, suas manifestações e miscigenações me fascinam, e esta história abria-me portas à imaginação e à projeção de um futuro próximo menos conservador, preconceituoso e cientificamente fechado daquele que eu vivia em 1997 quando comprei o livro.

Através de várias personagens e pormenores do enredo este livro veio confirmar-me uma série de interesses, crenças e projeções minhas como sendo realidades deste mundo ou de outros mundos. Sem querer alongar-me nem contar o enredo a quem nunca leu o livro, resta-me dizer que entre os imensos pormenores de interesse também destaco o gato que serve de canal telepático de comunicação e ainda o deus Hórus como figura gravitacional. E tudo isto me fez sentido, entre passados e futuros, mundos e extra-mundos, pessoas-máquina e animais poderosos. Ainda hoje leio a história e fico fascinada com a capacidade que tem de prender-me e fazer-me parar para pensar. Marcou-me imenso.

Carla Isidoro – 13 de Dezembro de 2016

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