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Novas Cartas Portuguesas – Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa

Escolho um livro maldito. O adjetivo não é meu, é de uma das autoras das Novas Cartas Portuguesas, Maria Teresa Horta, mas demonstra bem a perspetiva que muitos têm do único livro que alguma vez levou as suas autoras ao banco dos réus em Portugal, qualificado como “pornográfico e atentatório da moral pública”. Escrito por três mulheres – Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, conhecidas como as Três Marias –, as Novas Cartas Portuguesas são amadas fora e desprezadas dentro. Banido nos anos 70, o livro é, ainda hoje, das obras portuguesas mais traduzidas em todo o mundo, apontado como símbolo da luta antifascista em Portugal – coisa que o próprio país raramente se lembra de fazer. Este livro é um manifesto contra todas as formas de opressão, um grito sobre a condição das mulheres e a discriminação de que são alvo. É subversivo, pois. A ideia de igualdade também. As Três Marias só não foram presas porque entretanto aconteceu a Revolução de Abril. Nem os doutos da literatura têm desculpa por este esquecimento dissimulado, porque o livro é, também, inovador na forma, desde logo porque é escrito a seis mãos, que nunca denunciam qualquer autoria individual, mas também porque junta poesia, romance, ensaio, conto e carta. Apesar de reconhecida internacionalmente, quer do ponto de vista literário, quer do ponto de vista político, a obra pouco é estudada em Portugal, entrincheirada em estudos feministas e de género, que, como sabemos, continuam, lamentavelmente, a ser olhados de lado por ciências mais ou menos exatas que se acham superiores.Valha-nos o trabalho persistente de Ana Luísa Amaral – que, em 2011, fez uma edição anotada dedicada às novas gerações – para não o deixar cair no esquecimento (http://www.novascartasnovas.com/).

Tenho um exemplar velhinho deste livro. É da minha mãe, com dedicatória do meu pai, e ela passou-mo quando, há muitos anos, fui a uma sessão com as autoras e com Maria de Lourdes Pintasilgo, autora de um prefácio quase tão importante como a obra, que me deixou a seguinte dedicatória: “A nova geração mudará tudo!”. Este livro mudou-me, no sentido em que me demonstrou como a sociedade patriarcal e machista considera perigosa uma escrita assumidamente feminista, que pensa fora da caixa, que questiona a ‘natural’ ordem das coisas. Este livro consolidou a minha abordagem feminista à vida, adotada em tudo o que faço. Defendo – e comprometo-me a lutar para reverter isso – que as Novas Cartas Portuguesas não têm tido o lugar que merecem na História do país e que merecem passar a ser leitura obrigatória no ensino português.

Sofia Branco, 12 de Setembro de 2017

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