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Things Fall Apart – Chinua Achebe

O Tejo vertendo no Atlântico, amplo e luminoso, por baixo da ponte 25 de Abril, é para mim um dos locais mais inspiradores de Lisboa, que faz-me sempre viajar mentalmente até outros universos, como a boa literatura. Uma visão que, de certeza, também inspirou muitas outras pessoas e apelou-as para a aventura. Daqui partiram de barco, respondendo a um chamamento interior; sonhavam com a prosperidade, com façanhas, descobertas,… vá lá saber qual ideia os fazia riscar a própria vida. Hoje, um monumento em Belém homenageia o espírito empreendedor de parte desses “descobridores” portugueses. Mas muito frequentemente esquecemos que, aqueles que tiveram que os acolher, nas outras margens, não viveram o encontro como uma simples aventura, mas sim como uma experiência traumática. As consequências dessas viagens perduram até aos nossos dias, mudaram o planeta e a nossa percepção do mesmo de forma dramática.

Em terra firme, nas outras margens, os Europeus chegavam e “tudo se desmoronava”. Essa é a ideia de partida que subjaz no título “Things Fall Apart”, de Chinua Achebe. Publicado em 1958, dois anos antes da independência do seu pais, é o primeiro volume da chamada “Trilogia Africana” do escritor nigeriano. Ambientada a finais do século XIX, em plena expansão colonizadora europeia, conta a estória de Okonkwo, um chefe e pai de família de uma comunidade igbo, bem como dos seus familiares e outras pessoas da aldeia, chamada Umuofia, e de vários ingleses destinados no território.

O facto imperialista é narrado do outro lado, o lado Africano neste caso, mas a grandeza do livro é não cair numa pura nostalgia simplista de “tempos melhores”, num bucólico passado pré-colonial livre de males. Pelo contrário, Achebe é um autor sinceiro e sem complexos que apresenta as personagens e a sociedade igbo em toda a sua complexidade, com as suas luzes e as suas sombras. As páginas estão cheias de ironia e humor, e nenhuma das personagens é tratada com condescendência, nem sequer Okonkwo, o principal, que por vezes amamos e por vezes parece-nos ser o mau da fita. Justamente por isso, esta história é um contra-relato: revela a falta de percepção dos colonos, que a pesar de se considerarem superiores, não conseguem perceber a complexidade dos “sujeitos”, dos Africanos, e interpretam as suas reações como “selvagens” ou bárbaras.

Já tinha ouvido falar do livro muitas vezes e, de facto, não foi uma revelação quando finalmente o li. Marcou-me por razões menos comuns, pois veio tristemente confirmar e apoiar uma convicção minha que, desde há muitos anos, pareço partilhar com poucas pessoas: as coisas não têm evoluído muito após mais de um século e a grande maioria dos ocidentais -e não só- continuam a considerar os outros continentes como inferiores, mesmo aquelas pessoas que acham agir de boa fé. Acontece com a personagem de Mr. Brown, o missionário inglês que faz amigos entre os ‘nativos’, procura compromisso e não violência, mas acaba por ter uma imagem paternalista dos Africanos.

Esse cenário que eu própria observo, com grande frustração, é uma cópia daquele que descreve Achebe; os imperialistas são, talvez , hoje grandes empresas que exploram recursos, os missionários religiosos tornaram-se cooperantes que vão ajudar os pobres e incapazes africanos. Desde estes e outros preconceitos, a falta de compreensão é inevitável. Mas esta estória é também uma resposta do mais alto nível, uma porta entreaberta que deixa imaginar outros futuros.

Apesar de ter sido publicado há mais de cinquenta anos, ‘Things Fall Apart’ está de acordo com a actualidade num mundo que precisa de rever a sua história moderna para se olhar a si próprio sem medo e, principalmente, sem hierarquias de culturas. Devia ser leitura obrigatória em todas as escolas secundárias do mundo, como um clássico da literatura universal. Acima de tudo, é um livro escrito com realismo e genialidade, que retrata a vida diária duma forma quase física; sem ser pesado, consegue transmitir, por exemplo, os cheiros ligados à mudança de estação, o sabor do inhame cozinhado ou os barulhos de uma reunião de pessoas (…). O leitor sente-se presente, mas também faz uma viagem radical; provavelmente, a viagem definitiva, a mais importante, não a um outro continente exótico e distante, mas sim a um sítio perto, misterioso e conhecido ao mesmo tempo: o interior da alma humana, que é comum a todos, não importando de onde vimos.

Angela Rodríguez Perea, 23 de Setembro de 2017

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