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Tag : Ana Marques

21 May 2012

It is said that there is no love like the first love. “Quando Os Lobos Uivam” was not the first book that I read but it was the first book by Aquilino Ribeiro that I got my hands at and that I was privileged to enjoy. 

“ Quando Os Lobos Uivam ” is a classic of Portuguese literature. It was censored by the Estado Novo so it was first published in Brazil. The book chronicles the struggle of a population from Beira against the imposition of reforestation of some waste land that until then belonged to everyone. For the political powers of the time it not at all convenient this story of a group of men who could say no and fought for a cause from which depended their own survival. It is also interesting the family plot of the main character, Manuel Louvadeus, who returns after many years immigrated in Brazil, back when his wife and children had already thought he had disappeared. The drama of these “quasi-widows” of immigrants, who are harassed by other men, is a recurring theme in the work of Aquilino Ribeiro.

So, what delights me so much about this writer who died six years before I was born? I discovered Aquilino in February 2008. I thought I knew reasonably well all the classic Portuguese writers, who I have enjoyed since I began to like reading. Aquilino’s name was only familiar from seeing it for decades on my grandfather’s bookshelves. In school it was never mentioned to me. One day I read a text with this inscription: “This little tale in three chapters, is an homage to Aquilino Ribeiro, one of the biggest and most forgotten Portuguese novelists.” How could I have missed such a writer?
And so I “attacked” my grandfather’s bookshelves. I asked him the two books that interested me: “The Malhadinhas” and “Quando Os Lobos Uivam”. From that moment until today, I read fifteen books by Aquilino Ribeiro. No writer has ever struck me so deeply. It was a revelation. As if suddenly a tap was opened and words just flow out. New words. Obscure words. Some old, some reinvented, others simply unknown because they are not commonplace. But all of them treasures, pearls, magnificent discoveries that showed me new chances of transmitting ideas and naming feelings. What astonishing wealth Aquilino offered me!
The first books were read with a dictionary at hand, of course! But unlike the critics who despised him for that same reason, I found this process a pleasure. To discover! To learn! To enjoy the new! As he says in the preface of “Terras do Demo”, “a literary renaissance has to go back to the origins, to the classics and to the people.”
In the late Middle Ages, man came in the Renaissance because he went back to the Greek classics. And then he found Land and Man. And so he found himself entering in a modern era. To read Aquilino is to find Man. And Nature, which he describes as no one else. Images as beautiful as those I found in his books I had never read them before. His sense of the aesthetic is unusual.
(…)
This is what is called to celebrate Nature.

Diz-se que não há amor como o primeiro. “Quando Os Lobos Uivam” não foi o meu primeiro livro mas foi o primeiro livro de Aquilino Ribeiro que me passou pelas mãos e que tive o privilégio de desfrutar. 

“Quando Os Lobos Uivam” é um clássico da literatura portuguesa. Alvo da censura do Estado Novo teve a sua primeira edição no Brasil.
O livro relata a luta de uma população beirã contra a imposição de reflorestação de uma serra de terrenos baldios que até então pertencera a todos. Não convinha ao poder da altura esta história de um conjunto de homens que sabia dizer não e lutava por uma causa que nada mais era que a sua própria sobrevivência.
Interessante é também o enredo familiar da personagem principal, Manuel Louvadeus, que após longos anos imigrado no Brasil, regressa quando mulher e filhos já o davam como desaparecido. O drama destas “quase-viúvas” de imigrantes, assediadas pelos homens que ficam é um tema recorrente na obra de Aquilino Ribeiro.
Mas afinal o que me encanta tanto neste escritor que morreu seis anos antes de eu ter nascido? Descobri Aquilino em Fevereiro de 2008. Pensava que conhecia razoavelmente bem os escritores portugueses clássicos, os quais tenho apreciado desde que comecei a interessar-me pela leitura. De Aquilino conhecia o nome de o ver durante décadas na estante do meu avô. Na escola nunca mo mencionaram. Um dia li um texto que como dedicatória dizia: ” Este pequeno conto, em três capítulos, constitui homenagem a Aquilino Ribeiro, um dos maiores e mais esquecidos romancistas portugueses.” Seria possível que um escritor deste calibre me tivesse escapado? 
E lá fui eu “atacar” a velha estante do meu avô. Pedi-lhe os dois livros que me interessavam: “O Malhadinhas” e “Quando Os Lobos Uivam”
Desde esse momento até hoje, li quinze livros de Aquilino Ribeiro. Nunca nenhum escritor me marcou tão profundamente. Foi uma revelação. Como se de repente uma torneira se abrisse e jorrassem palavras. Palavras novas. Palavras obscuras. Umas velhas, outras reinventadas, outras simplesmente desconhecidas por não serem corriqueiras. Mas todas elas tesouros, pérolas, magníficas descobertas que me revelavam novas hipóteses de transmitir ideias e nomear sentimentos. Que riqueza espantosa me ofereceu Aquilino!
Os primeiros livros foram lidos de dicionário na mão, pois claro! Mas ao contrário dos críticos que por esse facto lhe desprezaram a obra, eu reconheci nesse processo um enorme prazer. Descobrir! Aprender! Gozar a novidade! Tal como ele afirma no prefácio de “Terras do Demo” “um renascimento literário tem de volver às origens, aos clássicos e ao povo”.
No final da Idade Média, o homem entrou no Renascimento precisamente por ter voltado aos clássicos gregos. E nessa altura reencontrou a Terra e o Homem. Ou seja: reencontrou-se entrando na era Moderna. Ler Aquilino é encontrar o Homem. A Natureza, que ele descreve como ninguém. Imagens tão belas quanto as que li nos seus livros nunca houvera lido antes. A sua sensibilidade e sentido estético são fora do comum. 
Vejamos um exemplo: “Apendoavam os centeais, e o frémito das espigas era mais ligeiro que a ondulação do mar mais benigno. O verde retinto vestia os campos até para lá de meia légua de bom andar, na encosta de Segões, onde a seara empoeirada do sol, já menos paveia que farfalha, barrava a serra da Estrela, em sua imensidade extática de bronze, dum esmaecido esmeralda. Pinhais taciturnos, baldios de fieito e de sargaço eram levados na envolta efusiva do verde; e céu azul, terra em festa, os animaizinhos do senhor cantavam. Cantavam. Cantavam todos nos seus jardins de serradela, ou à boca dos agulheiros, o grilo, o ralo, a cigarra vadia; na mata que, às horas do poente, estendia sua sombra pelos mortos, a rola, e a popa arrulhavam; e ali nas cerejas do quintal, que já tinham bichos, o passaredo moinante parecia uma aula de meninos malcriados. A Primavera despedia discretamente, sem avisar, vinha aí o Verão, um senhor Verão de chapéu de palha e cara pintada das amoras e das uvas. Aves e insectos celebravam a vinda estrondosa do grande rabaceiro, que lhes trazia fêmea, um silo, e farândolas de mosquitinhos loucos para encher o papo.”
 A isto se chama celebrar a Natureza. 
Ana Marques – May 14, 2012
21 May 2012

Aquilino Ribeiro

Aquilino Ribeiro

21 May 2012

Ana Marques – Quando os lobos uivam / Aquilino Ribeiro