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Tag : Gisela Casimiro

07 Mar 2016

Americanah – Chimamanda Ngozi Adichie

Quando pensei num livro para este projecto, foi a poesia que, enquanto meu grande amor, considerei primeiro. Daniel Faria? José Tolentino Mendonça? Leonard Cohen? Ou mesmo Pessoa, o incontornável, o deus? Poderia citar tantos outros nomes, em relação a contos ou romances, como os de Capote ou de Carson McCullers, que li e reli várias vezes, como sempre faço. Quanto mais os dias passavam, contudo, e a curiosidade me levava a descobrir as outras raparigas e os seus livros, mais me apercebia do quão simples e crua a resposta teria de ser. Foi quando pensei em Americanah, de Chimamanda Ngozi Adichie, nigeriana, autora, activista e feminista. O objecto-livro, em si, foi-me oferecido à saída de uma peça de teatro a que assistira, pelo amigo que me acompanhou, actor amador por sinal, como que numa troca leve mas pejada de afecto. Um livro feito à medida, para mim. Escrito por alguém como eu, alguém que eu pudesse admirar. Raça, corpo, trabalho ilegal, relações inter-raciais, corrupção, religião, suicídio e depressão infanto-juvenil, discriminação, imigração. Estes são alguns dos temas retratados em Americanah, que nunca deixa de se ir afirmando mais e mais como uma história de amor, seja a passada entre Ifemelu e Obinze, ou entre Ifemelu, a Tia Uju e o seu filho Dike ou, ainda, a de Ifemelu consigo mesma.

(…)

– Então, que tal correu o ATL?

– Bem. – Uma pausa. – A chefe do meu grupo, a Haley? Deu protector solar a toda a gente, mas a mim não me quis dar. Disse que eu não precisava.

Ela olhou para o seu rosto, que estava quase sem expressão, assustadoramente sem expressão. Não sabia o que dizer.

– Ela julgou que por tu seres escuro não precisavas de protector solar. Mas precisas. Muitas pessoas não sabem que quem tem a pele escura também precisa de protector solar. Eu compro-to, não te preocupes. – Estava a falar demasiado depressa, sem ter a certeza se estava a dizer a coisa certa ou qual seria a coisa certa a dizer, e preocupada, porque aquilo o tinha incomodado o suficiente para ela o ter visto no seu rosto.

– Não tem mal – disse ele. – Até foi, tipo, engraçado. O meu amigo Danny até se riu.

– Porque é que o teu amigo achou que era engraçado?

– Porque era!

– Mas tu querias que ela também te desse protector solar, não querias?

– Acho que sim – disse ele com um encolher de ombros. – Só quero ser normal.

Ela abraçou-o. Mais tarde, foi à loja e comprou-lhe um grande frasco de protector solar e da vez seguinte que veio de visita viu-o pousado na cómoda dele, esquecido e por usar. (…)

Ifemelu não é a minha primeira heroína negra de um romance. Seria impossível esquecer a corajosa Celie, d’ A Cor Púrpura, de Alice Walker. Mas Ifemelu vive no mundo contemporâneo, no meu mundo. Tem como eu a escrita como vocação, realizou o meu sonho de há muitos anos de ir viver para Nova Iorque, e regressou ao país onde nasceu. Eu nasci na Guiné-Bissau, vim muito pequena para Portugal, e espero voltar, pelo menos para conhecer o meu país de origem, em breve. Há vários despertares ao longo do livro, mais ou menos agradáveis, mas sempre acutilantes e precisos na sua continuidade, sendo talvez o principal o ser obrigada a aperceber-se da sua cor. Antes da Nigéria, Ifem era apenas ela mesma. Ao chegar à América passa a ser uma negra, uma estrangeira, alguém que não pertence, depositária de mitos, fetiches, ignorâncias e curiosidades alheias, uma parte da minoritária massa sem rosto. Aos poucos vai aprendendo a lidar consigo e com os restantes, e o seu blog acaba por influenciar positivamente quer a sua própria vida, quer a dos outros.

(…) Abe, que gostava bastante dela, que a achava inteligente e engraçada, até mesmo atrente, mas que não a via como mulher. Ela sentia curiosidade por Abe, mas todo o seu namoriscar não passava para ele de mera simpatia. Abe arranjar-lhe-ia um encontro com um amigo negro se tivesse um amigo negro. Ela era invisível para Abe. Aquilo esmagou-lhe a paixoneta e talvez a tenha feito também não reparar em Curt. (…)

Numa altura em que se discute o sentido que faz ainda constarem dos manuais escolares portugueses certos textos e expressões que apelam ao racismo, ao bullying, ao fatshaming; numa altura em que, ao fazer-se um filme sobre Nina Simone, a actriz escolhida para interpretar este ícone, Zoe Saldana, tem uma tez tão mais clara que se faz blackface de uma negra, em vez de se dar o papel a outra actriz; numa altura em que, há poucos meses, na Universidade de Direito de Harvard, alguém colou fita-cola preta nas fotos de antigos alunos, é imperativo que nos eduquemos e aos outros, é imperativo ver que Americanah poderia ser, também, “Europeiah”, por exemplo, e não baixar os braços, nem cerrar os olhos ou os ouvidos a outras cores e vozes. E ler, ler muito, porque um livro continua a poder mudar o mundo.

Gisela Casimiro – 3 de Março de 2016

07 Mar 2016

Gisela Casimiro – Americanah / Chimamanda Ngozi Adichie