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Tag : Herberto Helder

02 May 2016

O livro da minha vida – Sara F. Costa

Ao pensar nos livros da minha vida percorro o passado, para lá da infância onde me deparei com Álvaro de Campos –numa idade em que ninguém deve ler Álvaro de Campos – e comecei a achar que a morte não era um sítio assim tão importante. Vários livros de áreas diversas exerceram a sua influência no meu percurso de vida, um mais académico e outro puramente artístico ou literário. Por isso vou restringir esta escolha a esse percurso artístico, diminuo a escolha àqueles que me fizeram escrever. Tenho dois títulos em mente “O Medo” de Al Berto e “Ou o poema contínuo” de Herberto Helder. Foi num contacto adolescente com a poesia destes neo-simbólicos surrealistas que eu descobri o universo poético tal como o concebo. É em 2001 que é lançada esta criteriosa, minuciosa seleção poética de Herberto Helder sucessora da Poesia Toda (1971), “Ou o poema contínuo”. A noção de que cada poema nunca existe de forma insulada, que toda a poética se agrega e dessa maneira agregadora reproduz novas realidades líricas. Mas Herberto Helder não foi o primeiro, eu leio-o muito jovem em simultâneo com os poetas malditos franceses que tanto me seduziam: Baudelaire, Rimbaud, Pierre Reverdy, Lautréamont, Laforgue, todos esses simbolistas. As minhas influências assim uma mistura de simbolismo francês e surrealismo português. Em Portugal os meus surrealistas desdobram-se em influências várias. Autores como Cruzeiro Seixas, António Pedro, António Maria Lisboa, Manuel de Lima, Ernesto Sampaio, Mário Henrique Leiria e obviamente Mario Cesariny e a sua “Intervenção Surrealista”, não podem escapar a uma verdadeira amante do surrealismo. Mas aos dezassete, quando edito o meu primeiro livro, a poética herbertiana dominava quase lascivamente o principal motivo pelo qual me apetecia escrever: a escrita como única forma possível de expansão da leitura. Queria também eu produzir um poema contínuo e ainda persigo esta ideia, passados onze anos. A escrita de HH não é só um poema infinito, cuja releitura se traduz em nova produção, é também uma arte totalmente paralela à música e à arte plástica. Na minha conceção de poesia ela também é mesmo assim: parte música e parte imagem. Uma forma de arte total e absoluta, abjecionista, surrealista e dadaísta. É isto que se encontra neste livro. Um livro que se constrói “segundo as aspirações pessoais do idioma” (p.6) numa clara declaração belicista contra a língua, ainda que  assumindo a contradição do discurso poético que a renova, a língua enquanto “Devastação Inteligente”.

Sara F. Costa – 25 de Abril de 2016

02 May 2016
02 May 2016

Sara Costa – Ou o poema contínuo / Herberto Helder