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12 Dec 2017

Cem anos de solidão – Gabriel Garcia Márquez

Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo”.

Tinha 14 anos quando li pela primeira vez estas palavras.

Morava numa aldeia perdida na serra onde as casas não tinham livros, e nessa altura lia tudo o que conseguia, tudo o que me vinha parar às mãos.

Aprendi a ler muito cedo, decifrando as rezas da minha avó, e as receitas dos bolos de festa.

A Biblioteca Itinerante da Gulbenkian visitava a aldeia uma vez por mês e eu podia escolher dois livros. Eram os chamados “livros para a minha idade”, e não me satisfaziam de todo.

Lia-os de supetão, relia-os, e ficava vazia até poder ter outros dois novamente.

Entretanto escrevia. Escrevia sobre o que intuía, o que inventava, e também sobre os segredos mágicos que existiam na minha família e de que só se falava à boca-pequena – as histórias de amor contrariadas, as tias-avós que se suicidaram por terem perdido a honra, a minha bisavó que morreu de uma tristeza a que chamaram loucura mansa, e que passou os últimos anos da vida sentada numa cadeira sem proferir uma palavra- mas também sobre as plantas e os animais, e o nome das estrelas que o meu avô me ensinava.

Era solitária e melancólica, mas via magia em tudo e em todas as coisas.

Negavam-me essa magia, e diziam-me com a cabeça nas nuvens.

No entanto eu senti-a e sabia que existia.

Nessa altura foi decidido que eu iria estudar para longe de casa. O meu pai foi aconselhar-se com um professor do liceu que morava numa aldeia próxima, e eu fui com ele. Foi a primeira vez que vi uma estante cheia de livros, uma estante que ia de uma parede à outra, uma parede inteira maravilhosamente coberta de livros.

E em cima de uma mesa estava o Cem Anos de Solidão!

Nesse dia trouxe-o emprestado para casa, mergulhei de cabeça num buraco tal qual a Alice, e saí dele em Macondo!

E em Macondo, com os Buendia, encontrei o estranho o caricato o sobrenatural e o extraordinário!

Encontrei mulheres fortes, sabedoras, mulheres sem medos, mulheres que seguiam sonhos, que atravessavam montanhas, que desenhavam casas, que bordavam enxovais, que pariam, que não escondiam a sua sexualidade, a sua magia ou a sua diferença.

E homens que não iam apenas à guerra, construíam também os seus sonhos, e tinham a certeza deles!

Todos eles, homens e mulheres marcados secretamente por uma enorme solidão!

Nunca mais fui a mesma desde que li este livro pela primeira vez!

Sei-o de cor!

Com ele aprendi que a Magia é real, existe em nós, nas nossas vidas e nos nossos sonhos, basta apenas que acreditemos nela!

Maria Frazão, 10 de Dezembro de 2017

28 Sep 2017

Things Fall Apart – Chinua Achebe

O Tejo vertendo no Atlântico, amplo e luminoso, por baixo da ponte 25 de Abril, é para mim um dos locais mais inspiradores de Lisboa, que faz-me sempre viajar mentalmente até outros universos, como a boa literatura. Uma visão que, de certeza, também inspirou muitas outras pessoas e apelou-as para a aventura. Daqui partiram de barco, respondendo a um chamamento interior; sonhavam com a prosperidade, com façanhas, descobertas,… vá lá saber qual ideia os fazia riscar a própria vida. Hoje, um monumento em Belém homenageia o espírito empreendedor de parte desses “descobridores” portugueses. Mas muito frequentemente esquecemos que, aqueles que tiveram que os acolher, nas outras margens, não viveram o encontro como uma simples aventura, mas sim como uma experiência traumática. As consequências dessas viagens perduram até aos nossos dias, mudaram o planeta e a nossa percepção do mesmo de forma dramática.

Em terra firme, nas outras margens, os Europeus chegavam e “tudo se desmoronava”. Essa é a ideia de partida que subjaz no título “Things Fall Apart”, de Chinua Achebe. Publicado em 1958, dois anos antes da independência do seu pais, é o primeiro volume da chamada “Trilogia Africana” do escritor nigeriano. Ambientada a finais do século XIX, em plena expansão colonizadora europeia, conta a estória de Okonkwo, um chefe e pai de família de uma comunidade igbo, bem como dos seus familiares e outras pessoas da aldeia, chamada Umuofia, e de vários ingleses destinados no território.

O facto imperialista é narrado do outro lado, o lado Africano neste caso, mas a grandeza do livro é não cair numa pura nostalgia simplista de “tempos melhores”, num bucólico passado pré-colonial livre de males. Pelo contrário, Achebe é um autor sinceiro e sem complexos que apresenta as personagens e a sociedade igbo em toda a sua complexidade, com as suas luzes e as suas sombras. As páginas estão cheias de ironia e humor, e nenhuma das personagens é tratada com condescendência, nem sequer Okonkwo, o principal, que por vezes amamos e por vezes parece-nos ser o mau da fita. Justamente por isso, esta história é um contra-relato: revela a falta de percepção dos colonos, que a pesar de se considerarem superiores, não conseguem perceber a complexidade dos “sujeitos”, dos Africanos, e interpretam as suas reações como “selvagens” ou bárbaras.

Já tinha ouvido falar do livro muitas vezes e, de facto, não foi uma revelação quando finalmente o li. Marcou-me por razões menos comuns, pois veio tristemente confirmar e apoiar uma convicção minha que, desde há muitos anos, pareço partilhar com poucas pessoas: as coisas não têm evoluído muito após mais de um século e a grande maioria dos ocidentais -e não só- continuam a considerar os outros continentes como inferiores, mesmo aquelas pessoas que acham agir de boa fé. Acontece com a personagem de Mr. Brown, o missionário inglês que faz amigos entre os ‘nativos’, procura compromisso e não violência, mas acaba por ter uma imagem paternalista dos Africanos.

Esse cenário que eu própria observo, com grande frustração, é uma cópia daquele que descreve Achebe; os imperialistas são, talvez , hoje grandes empresas que exploram recursos, os missionários religiosos tornaram-se cooperantes que vão ajudar os pobres e incapazes africanos. Desde estes e outros preconceitos, a falta de compreensão é inevitável. Mas esta estória é também uma resposta do mais alto nível, uma porta entreaberta que deixa imaginar outros futuros.

Apesar de ter sido publicado há mais de cinquenta anos, ‘Things Fall Apart’ está de acordo com a actualidade num mundo que precisa de rever a sua história moderna para se olhar a si próprio sem medo e, principalmente, sem hierarquias de culturas. Devia ser leitura obrigatória em todas as escolas secundárias do mundo, como um clássico da literatura universal. Acima de tudo, é um livro escrito com realismo e genialidade, que retrata a vida diária duma forma quase física; sem ser pesado, consegue transmitir, por exemplo, os cheiros ligados à mudança de estação, o sabor do inhame cozinhado ou os barulhos de uma reunião de pessoas (…). O leitor sente-se presente, mas também faz uma viagem radical; provavelmente, a viagem definitiva, a mais importante, não a um outro continente exótico e distante, mas sim a um sítio perto, misterioso e conhecido ao mesmo tempo: o interior da alma humana, que é comum a todos, não importando de onde vimos.

Angela Rodríguez Perea, 23 de Setembro de 2017

22 Sep 2017

O Grande Gatsby – Scott Fitzgerald

Tinha 17 anos e uma ânsia de mundo que a visão do Tejo, da janela de casa, atiçava. Sonhava com aviões e comboios nocturnos, mas, nesses tempos pré-Erasmus, só os livros e os filmes acalmavam tal desejo. Na disciplina de Inglês, no 12º ano, exigia-se então a leitura integral do romance de Francis Scott Fitzgerald, The Great Gatsby. “Uma seca”, garantia quem por lá passara anteriormente. “Um clássico da literatura norte-americana”, advertia a professora que, percebia-se rapidamente, não morria de amores por essa história de sonhos perdidos na América da Lei Seca.

Creio que me apaixonei logo pela musicalidade das palavras, mesmo que tivesse de ler com Dicionário Inglês-Português ao lado. Durante anos, soube de cor as primeiras linhas: “In my younger and more vulnerable years my father gave me some advice that I’ve been turning over to my mind ever since.” Depois, havia o ambiente e o cenário: os loucos anos 20, as raparigas de cabelo à garçonne e vestidos de franjinhas que acompanhavam o ritmo frenético dos pés a dançar o “fox trot”. Amantes sonhadores em tardes em que só se movia a gaze das cortinas nas janelas. Um pontão, no horizonte, de que se divisava a luz verde de um pequeno farol. Pego no exemplar, velho de 30 anos, que usei nesse distante ano lectivo de 1985-86, editado pela Charles Scribner’s Sons, de Nova Iorque, e ainda lhe encontro as anotações que fiz a lápis – e em Inglês para me facilitar o estudo. Referem-se quase sempre aos caracteres das personagens (a inconsistência intelectual e moral do casal Buchanan, o desespero dos Wilson, a nova mulher independente e desportista personificada por Jordan Baker), mas rapidamente compreendo, e recordo, que o meu coração adolescente balançava entre Nick, o narrador, e o protagonista, Jay Gatsby. Creio que voltaria a balançar, talvez porque, no coração e no sistema de valores, continuo a ter exactamente os mesmos 17 anos.

Francis Scott Fitzgerald, que escreveu esta obra, hoje canónica, com menos de 30 anos, teve uma vida breve e atormentada porque ao sucesso precoce não correspondeu continuidade igualmente brilhante. Diz-se que, por causa de Zelda, a sua disfuncional amada, ou porque a bebida e os prazeres da vida boémia o foram desviando dos rigores da escrita. O certo é que, sei-o hoje, criou o protótipo do herói americano que está para a Literatura, como Gary Cooper, Humphrey Bogart ou, mais recentemente Sam Shepard, estiveram para o Cinema. Um homem solitário, misterioso, nem sempre honesto nos negócios, mas leal nos sentimentos, que reinventa o mundo à sua imagem, movido por uma vontade indómita (título, aliás , de um filme justamente com Gary Cooper). Alguém a quem uma paixão contrariada na juventude servira de motor para procurar a suprema riqueza, o luxo à Citizen Kane, novas “raízes”, na tentativa de reconquistar o amor da sua vida, sem cuidar de saber se este estaria à altura da expectativa. Advertem-no de que não pode repetir o passado. Sentindo-se omnipotente na sua determinação, parece nem perceber a justeza da questão. “Of course I can”, responde, sem que o assalte a mais ténue dúvida. O que ele não podia saber, na sua cegueira, é que idealizara a amada Daisy, a ponto de não perceber que ela há muito que hipotecara qualquer sonho de amor a uma vida de dourada vacuidade.

O que me impressiona hoje é como esta história de amor e frustração tocou tanto uma miúda de 17 anos, que mal começara a viver, mas que, graças a tal paixão literária, conseguiu a melhor nota nacional do exame de Inglês desse ano lectivo. Seria o romantismo do protagonista, a sua necessidade de reinventar o mundo e a si mesmo, como eu própria, insatisfeita com o meu destino periférico (sim, Portugal era mesmo um sítio periférico em meados dos anos 80), sentia? A verdade é que esse fascínio perdura até hoje, sobrepôs-se a muitos outros amores literários e resistiu a várias adaptações cinematográficas (desde a de 1974, com Robert Redford e Mia Farrow, até à luxuriante, de Baz Luhrmann, em 3D, com Leonardo DiCaprio). Ao longo da vida, ofereci muitos exemplares de The Great Gatsby. Em Inglês, mas também em Português (numa boa tradução do escritor José Rodrigues Miguéis) e tenciono oferecer mais uns tantos. Em alguns casos procuro chamar a atenção para os cambiantes e matizes, tantos e tão belos, que se ocultam no que pode parecer uma banal história de amor e desamor. Para aquilo que torna The Great Gatsby uma obra que resiste à passagem do tempo, à mudança de hábitos e costumes, lado a lado com Guerra e Paz ou Dom Quixote. Como aquele final, deslumbrante, em que Fitzgerald estabelece o contraponto entre o optimismo inabalável do protagonista, simbolizado pela luz verde no pontão fronteiro à sua janela, e a força de um passado que não termina. Leiam devagar para lhe saborear as palavras: “So we beat on, boats against the current, borne back ceaselessy into the past.”

Maria João Martins, 21 de Setembro 2017

13 Sep 2017

Novas Cartas Portuguesas – Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa

Escolho um livro maldito. O adjetivo não é meu, é de uma das autoras das Novas Cartas Portuguesas, Maria Teresa Horta, mas demonstra bem a perspetiva que muitos têm do único livro que alguma vez levou as suas autoras ao banco dos réus em Portugal, qualificado como “pornográfico e atentatório da moral pública”. Escrito por três mulheres – Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, conhecidas como as Três Marias –, as Novas Cartas Portuguesas são amadas fora e desprezadas dentro. Banido nos anos 70, o livro é, ainda hoje, das obras portuguesas mais traduzidas em todo o mundo, apontado como símbolo da luta antifascista em Portugal – coisa que o próprio país raramente se lembra de fazer. Este livro é um manifesto contra todas as formas de opressão, um grito sobre a condição das mulheres e a discriminação de que são alvo. É subversivo, pois. A ideia de igualdade também. As Três Marias só não foram presas porque entretanto aconteceu a Revolução de Abril. Nem os doutos da literatura têm desculpa por este esquecimento dissimulado, porque o livro é, também, inovador na forma, desde logo porque é escrito a seis mãos, que nunca denunciam qualquer autoria individual, mas também porque junta poesia, romance, ensaio, conto e carta. Apesar de reconhecida internacionalmente, quer do ponto de vista literário, quer do ponto de vista político, a obra pouco é estudada em Portugal, entrincheirada em estudos feministas e de género, que, como sabemos, continuam, lamentavelmente, a ser olhados de lado por ciências mais ou menos exatas que se acham superiores.Valha-nos o trabalho persistente de Ana Luísa Amaral – que, em 2011, fez uma edição anotada dedicada às novas gerações – para não o deixar cair no esquecimento (http://www.novascartasnovas.com/).

Tenho um exemplar velhinho deste livro. É da minha mãe, com dedicatória do meu pai, e ela passou-mo quando, há muitos anos, fui a uma sessão com as autoras e com Maria de Lourdes Pintasilgo, autora de um prefácio quase tão importante como a obra, que me deixou a seguinte dedicatória: “A nova geração mudará tudo!”. Este livro mudou-me, no sentido em que me demonstrou como a sociedade patriarcal e machista considera perigosa uma escrita assumidamente feminista, que pensa fora da caixa, que questiona a ‘natural’ ordem das coisas. Este livro consolidou a minha abordagem feminista à vida, adotada em tudo o que faço. Defendo – e comprometo-me a lutar para reverter isso – que as Novas Cartas Portuguesas não têm tido o lugar que merecem na História do país e que merecem passar a ser leitura obrigatória no ensino português.

Sofia Branco, 12 de Setembro de 2017

28 Aug 2017

Memorial do Convento – Jose Saramago

Beira Alta abaixo. Entre curvas e contracurvas uma expedição de solavancos e estradas estreitas nas quais eu enjoava invariavelmente. Se se aproximavam as curvas da Tapada conseguíamos quase avistar os torreões do convento, assim se chamava à época, sem Monumento ou Palácio, nomes pomposos não lhe assentavam. A aproximação dos torreões era recebida com júbilo. A minha avó materna soltava um “minha casa, minha brasa”. Mais uma volta, descer a avenida e assim se estaria em casa. O convento era casa e Mafra era casa. O convento era para mim apenas ‘o convento’. Enorme, desarmonioso, exagerado e superlativo. Acrescia o tom escuro e cinzento pintado pela opacidade de anos passados, séculos talvez, um clima capaz de chamar D. Sebastião, tenho a certeza de que quando aparecer será aqui, e vento. Um sítio oco, onde se dizia terem habitado reis e frades, havia a cozinha e a enfermaria, é certo, mas uma casa sem gente é um coração devoluto sem arritmias nem sobressaltos, um eterno sono de monotonia e sem coração o que somos?

Uma outra ocasião veio um amigo de outras paragens também e também ele se perdia de amores pelo convento. Imponente e monumental no seu dizer, o tal casarão oco de sentires, com salas ornamentadas com chifres, um corredor enorme de norte a sul ou de sul a norte, diz-se que ali se situavam os aposentos reais e tão grande distância só se explica como inibidor do desejo exigido na solenidade das cópulas reais.

Ocasionalmente o convento brotava música. Nessas alturas eu gostava do convento. Era o Gato, dizia-se, era o Francisco Gato que estava a ensaiar fora de tempos, a seu tempo, e que lá iria aos domingos, se a memória não me falha, fazer vibrar os carrilhões, dois adquiridos, a irrisória quantia de 400.000$00 réis a unidade não fez hesitar El-Rei D. João V na sua soberba. Um dia o convento deixou de jorrar música sobre a vila, e terá sido pouco antes do eterno silêncio que começou a brotar palavras.

Nas palavras nada havia do que eu conhecia do monstruoso edifício que encimava uma vila no seu estertor pelas sete da tarde quando se recolhiam as gentes da ira de um clima caprichoso. Nessas palavras eu descobri um mundo novo. Havia gente e a gente é o que dá vida às coisas, porque sem gente as coisas são apenas coisas e é por tudo isto que o Memorial do Convento é o livro da minha vida. Porque dentro dele há a gente e a magia que nunca existiram antes na severidade dos tectos altos e corredores longos do convento. Há o amor incondicional de um homem e de uma mulher, Sete-Sóis e Sete-Luas, sem regras que não as dos próprios e a do amor urgente e caminhado dos amantes eternos, há sonhos de voos, de ir mais alto mais longe, de acreditar que, sem a vontade dos homens, a ciência é inútil e o trabalho estéril. Há o hino e a homenagem a quantos pereceram para que a megalomania se erguesse em matéria, paz à tua alma, Francisco Marques, nomes e rostos que imaginamos nas páginas que também vão libertando odores fétidos de uma sociedade corrompida pelas trevas do obscurantismo e da intolerância, o povo de barriga vazia e a opulência obesa do poder.

E nunca mais olhei para o convento da mesma forma. Às vezes vagueio com o olhar no horizonte, “O mar está longe e parece perto, brilha, é uma espada caída do sol que o sol há-de desembainhar devagarinho quando descer do horizonte e enfim se sumir”, outras nos mistérios que encerram as estátuas da Basílica “Disse Blimunda, devem ser infelizes os santos, assim como os fizeram, assim ficam, se isto é santidade, que será a condenação, São apenas estátuas. Do que eu gostava era vê-las descer daquelas pedras e ser gente como nós, não se pode falar com estátuas, Sabemos nós lá se não falarão quando estão sozinhos”, e dias há em que ainda espero ver Bartolomeu Lourenço, Baltasar Sete-Sóis e Blimunda Sete-Luas sobrevoando Mafra “É Mafra, além, grita Baltazar, parece o gajeiro a bradar do cesto da gávea, Terra” iluminada hoje pelo talento de um homem simples que um dia decidiu ressuscitar um palácio, José Saramago de seu nome, e pelo encantamento que apenas a arte traz à vida dos mortais. Há quem lhe chame literatura.

Leonor Barros, 14 de Agosto de 2017

21 Aug 2017

Cem Anos de Solidão – Gabriel Garcia Marquéz

Nunca soube responder quando me perguntam qual é o meu filme favorito ou a minha banda preferida, mas o mesmo não acontece com os livros. Quando por algum motivo se torna necessário eleger o livro da minha vida, tenho a resposta na ponta da língua: Cem Anos de Solidão, do Gabriel García Márquez.

A primeira coisa que acontece quando começamos a ler este livro é deixarmos de respirar. Desde a primeira frase, uma das mais célebres da história literária, [“Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo.”] que somos arrastados por um turbilhão de acontecimentos mágicos, sangrentos e escandalosos também, que giram em torno de uma família na qual os nomes se repetem geração após geração e com a qual viajamos para a frente e para trás no tempo, de forma tão fluída e tão rápida, que ficamos com o cérebro a doer ao tentarmos não perder o fio à meada. A segunda é que não conseguimos parar de ler, só mais um parágrafo, só mais uma página, só mais um capítulo, … Já estamos dentro do turbilhão!

Precisamente para não perder o fio à meada, sempre que leio este livro vou desenhando uma árvore genealógica, adicionando as personagens à medida que elas surgem no livro, ligando-as entre si pelas ligações familiares, amorosas e incestuosas (até ao nascimento do último Aureliano, que veio ao mundo com um rabo de porco, tal como avisava a lenda). Tenho a primeira árvore genealógica que desenhei da primeira vez que li o livro na sua última folha, mas nunca lá vou espreitar o resultado final, gosto de ir (re)descobrindo, aos poucos, a família e a sua história.

O livro Cem Anos de Solidão impressionou-me pela forma como descreve tão bem os desencontros e os escândalos das famílias (quem os não tem), o vazio da guerra sempre presente e a solidão enquanto única resposta possível perante certas crueldades da vida… E a forma como a vida anda sempre aos círculos, avós, pais, filhos, netos e tios, são iguais em nome e nas suas atitudes durante a vida. “…tudo o que neles estava escrito era irrepetível desde sempre e para sempre, porque as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda oportunidade sobre a Terra.” E não é a isso que estamos condenados todos, ao esquecimento, para sempre?

Aconselho a leitura de Cem Anos de Solidão não uma vez na vida, mas sim muitas vezes ao longo da vida! É um livro realmente especial, difícil de explicar por palavras. O melhor mesmo é lê-lo e deixar-se levar pela história.

Obrigada Mário pelo projeto Book Loving Girls! <3

Sónia Costa – 14 de Agosto de 2017

15 Aug 2017

O dia do terramoto – Ana Maria Magalhães/Isabel Alçada

Escolhi este livro porque mudou realmente a minha vida… Com ele tornei-me leitora!
Tinha cerca de 12 anos e era uma miúda que gostava muito de ler e tinha aprendido com a minha professora primária a gostar de História de Portugal. Não me recordo se foi ela ou a minha mãe que me aconselhou este livro (o meu primeiro “calhamaço”), mas lembro-me perfeitamente de o ler com muito pouca luz para que a minha mãe não ralhasse comigo por adormecer tarde… Conclusão: comecei a usar óculos e apaixonei-me! Apaixonei-me por Historia, por histórias e por viagens!

A leitura passou a ser uma necessidade… Um vício, diria.
As viagens… Bom, sempre que posso, lá vou eu ver ao vivo e a cores os cenários…
E as histórias!?… Estudei e estudei quase sem parar até há bem pouco tempo. Fui professora de 1º ciclo (como a minha!) e hoje em dia e depois de muitas batalhas vencidas com a bandeira da paixão pelo que se faz e muito trabalho, sou Contadora de Histórias e Mediadora de Leitura!

Sim, este livro mudou a minha vida e também foi ele que, de certa forma, iniciou uma das minhas histórias… aquela que ainda estou a contar!

Cristina Fernandes – 14 de Agosto de 2017

27 Jun 2017

Sun Tzu – A Arte da Guerra

Quando o Mário me lançou este desafio, a grande dificuldade foi escolher um livro. Foram tantos os livros que marcaram a minha vida, cada livro chegou na hora certa e,  alguns voltaram vezes sem conta com os seus sábios ensinamentos para me ajudarem a verificar se o coração e a cabeça ainda estão no lugar certo.

Nesta fase da minha vida fez-me todo o sentido escolher a Arte da Guerra, um manual de perolas de sabedoria repleto de palavras que ecoam dentro de mim.

Apesar de se pensar que foi escrito como “manual de estratégia militar” sobreviveu ao longo de séculos como um livro de ensinamentos que ultrapassaram as fileiras militares e hoje continuam a inspirar pessoas por toda a parte.

Para mim este livro é acima de tudo um livro que incita ao autoconhecimento e o autocontrolo, colocando como prioridade evitar a todo o custo entrar em batalhas.  

“Toda a vitória militar é sempre uma derrota”, este é um ensinamento que guardo para a vida, por vezes a maior força está em evitar o conflito. No entanto, sempre que é necessário travar algum tipo de batalha, é importante ter um conta alguns critérios:

“Quem o inimigo conhece e a si mesmo se conhece,

  nunca em cem batalhas estará em risco:

  Quem o inimigo não conhece, e apenas a si mesmo

  Umas vezes vencerá, e outras perderá;

  Quem o inimigo não conhece, nem a si mesmo

  Está em risco em qualquer batalha.”

Na duvida, é melhor não ir para a batalha, mas quando não há alternativa é melhor ir bem preparado, afinal; “ as vitórias podem ser antecipadas mas não podem ser forçadas”.

Cristina de Montezo – 26 de Junho de 2017

20 Mar 2017

Paul Auster – A Trilogia de Nova Iorque

Li este livro há precisamente um ano – foi-me oferecido por um querido amigo no meu aniversário, e ele foi muito claro: “se adoras Nova Iorque, é o livro que tens que ler”. Comecei a lê-lo no dia seguinte e percebi imediatamete o que ele queria dizer: já o devia ter lido há pelo menos 10 anos!

Mas não é só por ser um apaixonada por Nova Iorque que fui confrontada com o facto óbvio de que estava perante um dos livros da minha vida: foi pela densidade das personagens; pelas ironias maravilhosas de Auster; pelas histórias tão surreais quanto potencialmente reais.

Nova Iorque tem uma incrível capacidade para nos fazer sonhar. É a cidade onde parece, de facto, que tudo é possível. São os arranha céus, os bairros super organizados ou não, as avenidas largas, as luzes, as pessoas, as infindas possibilidades de resultados das histórias que se entrecruzam em estações de metro, parques, jardins ou restaurantes. Ou museus. Ou bibliotecas. Ou bancos de jardins.

E tudo isso se reflecte neste livro de Auster: são três contos que se interligam em dezenas, centenas de variáveis deliciosas e envolventes, que nos põe a pensar na nossa própria existência e nos fazem perceber que as nossas vidas são uma ínfima parte de um universo muito maior e mais denso. Perdemos importância. Descentramos o mundo do nosso mundinho e percebemos que importamos pouco no grande esquema das coisas. No fundo, Auster é também um choque de realidade de que eu estava bastante precisada quando o li.
E claro!, para além de uma viagem imaginária por Nova Iorque, Auster conseguiu o resto que NÃO faltava da minha atenção ao fazer-me dar um salto a Paris (outra cidade do coração) exatamente com o mesmo nível de qualidade. E de histórias. Portanto, de que forma podia este não ser o livro escolhido para este projeto? Essa certeza é, aliás, assustadoramente reconfortante de alguma forma. É como voltar a casa.

Margarida Vaqueiro Lopes – 17 de Março de 2017

27 Dec 2016

Ana Teresa Pereira – A ultima historia

Talvez por ser tímida, a leitura ocupou grande espaço na minha adolescência. Gastava na papelaria do meu bairro, que fazia as vezes de livraria, toda a minha mesada.  Mas, na verdade, foi o Círculo de Leitores que me trouxe a casa, sem eu mexer uma palha, a Ana Teresa Pereira, uma autora que me prendeu para sempre. Era um livro chamado “A noite mais escura da alma”.

Depois desse li quase todos os que publicara, incluindo este que seguro nas mãos: “A última história” numa edição da Caminho de 1991. As nossas vidas são feitas disso mesmo: histórias, vivências… sem que saibamos qual será a última ou até quem a escreveu. Neste livro há um momento em que uma das personagens pergunta a outra: “Eras tu que escrevias os meus livros?” Como se houvesse a fusão/confusão daquelas pessoas (algo muito recorrente nas narrativas da autora). De alguma forma a escrita de Ana Teresa Pereira influenciou a minha. O seu imaginário toca o meu. As histórias que escreve têm sempre um mistério sedutor. As personagens são ferozes e frágeis ao mesmo tempo. A vítima, muitas vezes, está viciada nessa sua condição. Aceita morrer às mãos do amor. A loucura, ou a sua iminente possibilidade, ocupa um espaço inevitável. A beleza confunde-se com a natureza. A fealdade contém partes dessa beleza. E o amor mostra as suas diferentes caras. A solidão revela do que é capaz. A tentação é verdadeira. As cores mergulham nelas as histórias. O passado aparece nos detalhes, nas joias simples, nos lugares, nas frutas e nas rotinas. E tudo isso me fascina.

É uma prosa poética; cheia de elementos, sentimentos, atmosferas, recorrentes, como se a história nunca acabasse de ser contada, livro após livro. A autora dá-nos as suas referências literárias e artísticas, envia-nos sugestões, que vão de Paul Klee a Rothko, e na literatura: Yeats, Poe, Christian Andersen ou Iris Murdoch. Ana Teresa Pereira é uma mestre na literatura de mistério e suspense e é uma grande referência para mim.

Mónia Camacho – 26 de Dezembro de 2016